Santosha

 

A palavra Santosha vem do sânscrito e significa contentamento, satisfação ou felicidade interior.

É um conceito fundamental na filosofia Yoga e no Budismo, que se refere ao estado de felicidade e paz interior que surge da aceitação do presente momento e da gratidão pelas coisas simples da vida que resulta em um estado de plenitude com esse mundo.

Quando se obtém santosha, não estamos satisfeitos com algo porque isto nos alegrou por ter nos dado certos resultados que esperávamos. Não! Santosha é uma sensação que parte de nosso interior para as coisas ao nosso redor. E não depende de nenhuma condição!

Quando todos os sentimentos negativos de preocupação; expectativas; dúvidas; arrependimentos; ansiedade e medo desaparecem, a pessoa sente santosha, que não advém de nenhuma causa externa, logo não desaparece ao cessar algum evento ou causa que o tivesse gerado.

Por conflitos aqui entendemos não as adversidades da vida, que são inúmeras e das quais precisamos estar dispostos a buscar soluções para elas no dia a dia, mas dos sentimentos que criamos em relação a esses acontecimentos e suas falhas.

Os sentimentos e sensações negativos são como demônios que nos atormentam diariamente, nos entorpecem a visão, nos iludindo com uma falsa realidade e nos impedindo de sentir contentamento, como uma cortina espessa na janela que impede a luz de entrar e iluminar o interior. 

Eu posso conquistar e ter qualquer coisa, desde que não me torne prisioneiro do apego por estas coisas. O apego cria um status de valor nas coisas. Quando eu fico apegado a alguma coisa, significa que estou dependente dela fora de mim para encontrar o seu significado dentro de mim. Isso quer dizer que elas têm um valor que eu não encontro mais em mim mesmo, sendo assim, aquilo que eu acho que me completa e me dá valor se torna insubstituível e indispensável. Quando compreendemos que todas as coisas que estão fora de nós são apenas um reflexo do que já temos em nosso interior e só tem o valor que nós mesmo lhes atribuímos, desvinculamos essa relação e temos mais liberdade de usufruir de tudo, sem nos apegar a nada.

Quando nos apaixonamos por alguém, essa pessoa só nos inspirou a sentir algo que já existe latente em nosso interior, assim como uma semente que germina quando em contato com a umidade. Nós já temos um modelo interior de tudo o que há em nosso exterior e apenas declaramos uma pessoa como sendo o representante legal do sentimento que nós mesmos criamos dela. Então… quando temos saudades de alguém só estamos sentindo falta do sentimento que ela desperta em nós. Mas esse sentimento tem muito mais a ver conosco do que com aquela pessoa. Só o que precisamos fazer é olhar e compreender esse sentimento em nós.

Se andássemos no meio de uma multidão de pessoas e encontrássemos alguém muito querido que não vemos a muito tempo e que tivéssemos muito desejo de encontrá-la, quando a enxergássemos nosso coração iria disparar de alegria e correríamos gritando o nome dela até alcançá-la. Mas, suponhamos, que fosse uma pessoa muito semelhante, mas não quem queríamos que fosse: o que ocorreria durante esse curto espaço de tempo que nos confundimos? Todas as nossas reações emocionais teriam sido as mesmas se tivéssemos de fato encontrado a pessoa amada. Isso pode nos mostrar que todas as nossas reações emocionais por uma pessoa são criadas por nós mesmo e muito pouco ou quase nada têm a ver com ela, pois quando confundimos um estranho com alguém conhecido temos as mesmas reações de felicidade.

No fundo o que buscamos mesmo é ver nosso próprio reflexo nas pupilas da pessoa amada. A gente apenas escolhe as pessoas para manifestar e externar nosso amor e acabamos presumindo que sejam elas as fontes de nosso prazer. E o mesmo podemos dizer sobre tudo que nos apegamos: não somos apegados às pessoas, coisas e lugares; somos apegados ao que elas nos estimulam a sentir.

 

Texto extraído do livro: "Eu Sou Você"

Autor - Flávio Goulart Rodrigues

Editora Viseu

 


Postagens mais visitadas deste blog

Ensaio sobre a ilusão do sofrimento.

Ensaio sobre palavras e reações

Divergência e convergência