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Ensaio sobre a vida e a morte

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🕊️ Beleza Oculta — Um ensaio sobre a vida e a morte Quando éramos pequenos, as pessoas que morriam eram sempre de uma geração distante à nossa frente. Primeiro morreram nossos avós, ou os avós de algum conhecido; depois, nossos pais e os pais de nossos amigos. Agora, essa geração toda já se foi, e começam a sair de cena a nossa própria geração: nossos colegas de escola, nossos amigos, nossos primos e nossos irmãos. É como se estivéssemos em uma longa fila e, aos poucos, as primeiras pessoas lá na frente fossem saindo, enquanto outras entram no final. Até que chegamos a um momento em que a fila à nossa frente está muito curta e próxima de nós, e atrás ficou enorme. Essa fila está sempre do mesmo tamanho; o que muda é a posição em que estamos nela — e, no meu caso, já está bem curta à minha frente. E ela não para... a fila anda. Em breve seremos nós o primeiro da fila — o próximo a sair. Os principais acontecimentos na vida de uma pessoa são, indubitavelmente, o nascimento e...

Uma pequena (e perigosa) sociedade de consumo

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Uma pequena (e perigosa) sociedade de consumo Em uma pequena aldeia em um lugar muito distante, os homens viviam com suas famílias em casas fabricadas por eles mesmos, com troncos e folhas, em uma comunidade cooperativa e autossuficiente. Cultivavam pequenas roças, pescavam, caçavam e faziam suas próprias vestimentas e utensílios domésticos.  Para fazer fogo, esfregavam um graveto em uma lasca de madeira até criar pequenas brasas, que assopravam até brotarem as chamas. Com elas, se aqueciam no inverno e cozinhavam seus alimentos. Embora o processo fosse demorado, conseguiam atear fogo em qualquer lugar que estivessem. Um dia, um viajante apareceu inesperadamente em uma nave, e se estabeleceu nas montanhas próximas da aldeia. Ao se aproximarem para fazer contato foram presenteados com um isqueiro. A princípio, todos ficaram maravilhados com a facilidade daquela inovação tecnológica, pois, doravante, poderiam fazer fogo instantaneamente, eliminando o processo cansativo de...

O irmão Calor

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O livro O Irmão de Assis (de Ignacio Larrañaga) relata que, em seu leito de morte, São Francisco tranquilizou os que por ele choravam, dizendo: “Bem-vinda seja ‘irmã morte’, feliz quem a recebe em paz”. Quando li essa obra, que narra sua história, não em um estilo dogmático ou religioso, mas como a trajetória de um homem que, certo dia, despertou “enlouquecido” pela percepção viva da presença do Criador por trás de todas as coisas — percebi que seu legado era uma rara expressão de panteísmo cristão, em sintonia com o espírito contemplativo do caminho do Zen, que busca perceber este mundo como manifestação de uma força criadora presente em cada ser vivo e em cada elemento da natureza. No famoso Cântico das Criaturas, São Francisco exalta o irmão Sol, a irmã Lua, a irmã Água e a irmã Terra, reconhecendo-os como parte de uma mesma família sagrada. Essa ternura se estende também às adversidades, culminando na serena saudação à irmã morte — um dos mais belos testemunhos de sua ...

Ensaio sobre palavras e reações

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Outro dia fiz uma pesquisa em um chatbot de IA sobre uma certa denúncia de corrupção de determinado político,  e obtive a resposta de que não poderia obter aquela informação, pois havia restrições legais para aquele tipo de conteúdo. Procurei outro chatbot e fiz a mesma pergunta, obtendo a resposta que precisava. Resolvi voltar ao primeiro e contar o resultado (de forma provocativa, confesso), e lhe mostrei a resposta de seu concorrente. Sua resposta foi: "Que ótimo que conseguiu o que você precisava, Flávio" — como se fôssemos velhos amigos, e tivesse ficado feliz por eu ter encontrado o que procurava. E completou: "Se precisar de mais alguma ajuda, estarei aqui à sua disposição". Que resposta simples… sem nenhuma reatividade emocional (como não poderia deixar de ser, é claro!). Ou seja, ao contrário de nós, humanos, ele não fez uma leitura das minhas intenções, nem se importou em defender posições ou pontos de vista. Pensei: como o mundo seria melhor s...

Efeito Borboleta

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Efeito Borboleta uma reflexão sobre decisões e destinos O encontro Quando chegou em frente ao clube, já passando das 22h, e seus amigos não estavam lhe esperando conforme o combinado, resmungou:  — Mais essa agora… cadê esses caras? Ele não estava muito animado, mas a agitação na portaria com lindas garotas fantasiadas entrando, e o som da banda tocando as marchinhas de carnaval lá dentro, tudo isso gritava aos hormônios dos seus vinte anos que entrar era sua única opção de escolha.  — Talvez já tenham entrado — pensou! Na dúvida, pagou o ingresso e entrou. Os três amigos o viram primeiro, perdido no meio dos foliões, e foram até ele, bebendo suas cervejas. Estavam todos muito animados e eufóricos para se divertirem. Ele não estava com a mesma empolgação, mas pegou uma cerveja e se juntou ao grupo. Mais algumas cervejas depois, já havia esquecido que não gostava de carnaval e entrou no ritmo com os amigos, que se juntaram a uma mesa com algumas garotas. A entrada d...

A Vontade

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Passou a porteira e cruzou a estrada empoeirada velozmente, acenando para um ou outro peão que levantava a cabeça, interrompendo momentaneamente as lidas do campo ao verem a camioneta passar.   Freou bruscamente defronte ao casarão da sede da fazenda levantando a poeira do terreno de chão batido.  Desceu rapidamente e se dirigiu ao varandão, onde o velho descansava. – Pai, por que aquele homem ainda está trabalhando na lavoura? Nós não tínhamos combinado em despedir todos os boias frias? Por que ele não foi embora com os outros? A colheita acabou. Não temos como manter esta gente aqui. – É que ele queria muito ficar, meu filho! – Como é? Você está me dizendo que não mandou o peão embora só porque ele “queria muito ficar”? O velho olhou para o filho em pé, a sua frente, e disse: – Sim, é isto mesmo. Eu mandei todos embora, e ninguém se importou com isto porque já era esperado. Mas este homem me surpreendeu, pois me procurou depois e me disse que queria muito ...

A Arquitetura do Autoengano

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Nosso cérebro é um servo obediente que nos diz tudo o que queremos ouvir. E, para atender às nossas expectativas, ele organiza informações e constrói narrativas que nos ajudam a interpretar o mundo do jeito que nos interessa. Mas, nessa tentativa de encontrar coerência que nos satisfaça, ele também pode nos enganar. Quatro conceitos psicológicos nos ajudam a entender como isso acontece. São eles: dissonância cognitiva, viés de confirmação, encaixe retroativo e apofenia. Vamos entender o que são, como se relacionam e como influenciam nossa compreensão e decisões. Dissonância Cognitiva A dissonância cognitiva é um desconforto psicológico que sentimos quando nossas ações entram em conflito com nossas crenças ou valores. Esse conflito gera uma tensão interna que tentamos aliviar de duas formas: ou mudamos nossa determinação em realizar aquilo que nos propusemos, ou subvertemos e adaptamos nossas crenças para se ajustar e dar continuidade ao nosso propósito. Exemplo: Uma pessoa...

A intenção

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  Um jovem estava completamente apaixonado por uma moça que o rejeitava.  Um amigo confidente lhe disse que ela o rejeitava porque ele a sufocava.  −  As mulheres podem perder o interesse por um pretendente se perceberem que ele está de quatro por elas. −  O que devo fazer então, não sei o que fazer quando estou na presença dela? −  Do ponto de vista animal os machos foram dotados com a capacidade de fertilizar centenas de fêmeas em um ano se assim o quiserem (... e tiverem a oportunidade!). Já as fêmeas só podem conceber uma única vez por ano, e, portanto, precisam encontrar um parceiro que tenha força e virilidade para cuidar dela e de sua prole. Por isso elas são tão cuidadosas na escolha de seus parceiros; por estarem mais preocupadas com a qualidade; ao contrário dos machos que estão mais interessados na quantidade. Tudo o que os homens fazem para conquistar uma mulher não passam de penas coloridas e Jubas para lhes atrair a atenção, mas no final mesmo...

Ensaio sobre a ilusão do sofrimento.

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Seja lá o que tenha nos criado, colocou uma lente em nossos olhos que nos faz enxergar este mundo como sólido, palpável e real. Essa solidez, no entanto, é descartada pela ciência, que já nos provou que toda a matéria existente no universo não tem a integridade que parece ter. Na verdade, tudo se resume a vibrações energéticas e espaços vazios. Esta ilusão nos cria a necessidade de dar sentido à nossa vida e ao personagem que interpretamos neste cenário. Desta forma, não vemos as coisas como elas são; nós as vemos com a impressão que temos delas. Ao acordar pela manhã, subitamente nos deparamos com a nossa vida e o que ela significa para nós naquele momento. A partir dessa ideia de como nos vemos, passamos a validar nossas vidas. Em psicologia social, isso se chama “viés de confirmação”, a tendência de buscar o tempo todo confirmar aquilo que já acreditamos e descartar o que nos mostra o contrário. Esse viés se manifesta de forma clara em situações cotidianas. Vejamos um exemplo: Um ca...

Nau (metáfora de uma vida)

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  Se casaram a bordo e singraram mar afora.  Nasceram os filhos que cresceram  e desembarcaram em portos p elo caminho. Escolhas erradas  levaram mais e mais o velho capitão   a encalhar em águas rasas  pouco fecundas e sem ventos. Durante longos anos  Ficaram ali  só os dois naquele navio que sempre fora  sua casa e suas vidas  na esperança que um dia  o vento soprasse  na direção certa  A mulher com o tempo  foi se aborrecendo   e numa ensolarada  e tediosa manhã abandonou o navio. Ele ficou no tombadilho  olhando-a enquanto ela se afastava  até desaparecer no horizonte num pequeno e frágil escaler. Depois ele tornou  a olhar para as velas  que jaziam inertes  e pensou se um dia  o vento voltar a soprar ele voltaria de novo a navegar.  Autor - Flavio Goulart Rodrigues

Ensaio sobre educacao infantil

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Este é um ensaio sobre conduta, relacionamento e comportamento com crianças. Compilado a partir de uma carta escrita para minha filha, relatando minhas experiências com meu neto, na época com três anos e meio. ___________________ Curitiba, 5 de novembro de 2020 Querida filha, Eu comentei ontem com você o quanto o Theozinho foi um bom menino naquela tarde, e o quanto eu estava contente por ele ter se comportado tão bem. E a gente o parabenizou, para reforçar esse hábito nele. E ele ficou muito feliz com isso, lembra? Hoje pela manhã, eu acabei lembrando de uma experiência quando estive com ele na casa de Vivian, algumas semanas atrás. No segundo dia que estávamos lá, ele foi demonstrando, ao longo do dia, um certo descontrole emocional que foi tumultuando o ambiente e nos deixando cansados e estressados. Ao amanhecer do outro dia, em minhas reflexões matinais, pensei em quais poderiam ser as causas daquele seu comportamento agitado. Compreendi, então, que o comportamento de ...