Divergência e convergência


Basicamente podemos considerar as comunicações interpessoais como sendo "convergentes ou divergentes".
A palavra convergência significa coisas que se encaminham ou convergem para um ponto em comum, e a palavra divergente é o oposto disso (aquilo que se afasta do centro).

Logo, numa comunicação convergente se busca, inicialmente, entender o ponto de vista de quem está argumentando algo, e o que ele está querendo nos dizer, sem perder  o foco dos fundamentos do assunto em questão. Você entende as crenças dele e a forma como ele interpreta os fatos, mesmo que isso não vos  faça muito sentido em um primeiro momento, para, a partir dali, ir introduzindo os contrapontos, na medida que eles possam ser aceitos na conversa como plausíveis ou ao menos toleráveis.
Partindo dessa premissa, o importante ao interlocutor, ao expor uma ideia ou um contraponto, é achar um caminho para prosseguir com a conversa, minimizando ideias antagônicas e conflituosas,  e opiniões pessoais que possam se transformar em discussões infundadas e acaloradas.

Em uma conversa convergente os interlocutores estão mais comprometidos com fatos do que com opiniões pessoais. A preocupação maior é em manter o diálogo de forma que a conversa possa fluir naturalmente com ambas as partes fazendo concessões e reavaliações de seus próprios conceitos.

Já em uma conversa divergente cada um constroi uma trincheira com informações e opiniões ideológicas, onde defenderão suas posições com unhas e dentes e farão o possível para abrir a defesa do outro e tentar convencê-lo que ele está errado. 

Ilustrativamente as comunicações ”Divergentes” e “Convergentes” podem ser comparadas ao jogo de tênis e Frescobol, onde a bola representa o que falamos, e a quadra onde se joga seria as nossas opiniões (religião, política, conceitos de ética e moral, etc).
No jogo de tênis o que importa é eu derrotar o adversário impedindo que seu arremesso caia em meu campo. Ou seja, que a opinião do outro minem ou ponha alguma dúvida sobre o meu ponto de vista. Desta forma rebatemos a bola o mais "envenenada'' possível ao adversário, com o único propósito de ele não conseguir pegar e rebater. (lacrar, no jargão popular). Em uma discussão divergente as pessoas estão excessivamente comprometidas com seus pontos de vista, do qual não estão dispostas a abrir mão. É um cabo de guerra onde cada um puxa para o seu lado e ninguém consegue convencer o outro de nada.

A Dialética Erística de Arthur Schopenhauer trata de 38 estratagemas e ferramentas de retórica usadas para se vencer um debate, não importando se você tenha ou não razão. A maioria delas as pessoas utilizam no seu dia a dia sem o saber.

Por exemplo: uma pessoa visivelmente irritada dá uma bronca em alguém por algo que ela tenha feito ou deixou de fazer. As pessoas recebem essa crítica e reagem de diversas formas.

1 - A pessoa assume que errou, e pede desculpas, pura e simplesmente, prometendo tomar mais cuidado e evitar que isso ocorra novamente. Uma atitude convergente que demonstra força de caráter e tem tudo para apaziguar os ânimos.

2 - A pessoa não pede desculpas nem assume a culpa, mas atribui seu erro a alguma causa externa involuntária, do qual ele não joga a culpa em ninguém, mas se abstém um pouco da culpa. Também podemos considerar uma resposta convergente pois abre a possibilidade do diálogo e do entendimento.

3 - A pessoa contra ataca imputando a culpa em quem a está criticando e colocando à baila situações semelhantes cometidas por aquele que lhe acusa com o propósito de desclassificá-la (não teria moral para lhe criticar).  Atitude altamente divergente que eleva o conflito a discussões e troca de acusações e representa a maioria dos desentendimentos entre as pessoas.

Na comunicação divergente as pessoas estão constantemente sendo influenciadas por um mecanismo cognitivo designado pela psicologia social como “viés de confirmação”. Esse comportamento tende a nos fazer compreender e aceitar, peremptoriamente, tudo o que confirma e corrobora com nossas crenças e, corolário, a não compreender nem considerar quaisquer coisas que possam nos mostrar um outro ponto de vista que nos levasse a pressupor que estejamos equivocados.

No "jogo de frescobol'', por outro lado, não existem adversários; existem parceiros que formam duplas. Também não há demarcação de quadra ou linhas e redes que definam o meu campo e o campo do outro. Logo, não há uma ideia a ser defendida com unhas e dentes. 
Ambos os jogadores não podem pretender vencer o outro, pois o propósito do jogo não é esse; ao contrário,  o propósito do frescobol é manter a bola em jogo.
Ao contrário do jogo de tênis, no Frescobol o outro tenta me arremessar uma bola que eu possa defender. Eu defendo e lhe devolvo a bola igualmente fácil de alcançar. Mesmo que seja uma bola arremessada com muita força e energia, o jogador assim mesmo o fará dentro dos limites do que o outro possa defender. Mesmo que seja um contraponto, só o faremos dentro do minimamente aceitável e toleravel.
Esse tipo de comunicação não significa que  não se tenha ponto de vista diferente e ou que concordemos com tudo, mas sim, que é impossível mudar as opiniões alheias num embate, onde cada um tenta se aproveitar das falhas nos argumentos do outro para lacrar; o que sempre leva o outro a se fechar cada vez mais a qualquer entendimento. 
Também a capoeira tem essa mesma conotação do frescobol: é uma "luta" entre duas pessoas, mas que não há nenhuma intenção de atingir o adversário.

Cada um percebe onde o outro ataca e faz ajustes para se defender, sem contudo contra-atacar, aproveitando-se das falhas do oponente para lhe derrotar. Quanto mais conectados estiverem, percebendo o outro como parte complementar do combate, mais a luta se torna ritmada e harmoniosa. Igualmente quanto mais duas pessoas inteligentes debatem assuntos com opiniões diferentes, mas convergindo para tentar se entender mutuamente, mais os dois se compreendem e tornam a conversa proveitosa para ambos.

É claro que não se pode jogar Frescobol em um jogo de tênis, nem capoeira numa luta de Muay Thai. Isso seria um erro. Assim como não se pode usar os conceitos de comunicação convergente em um ambiente social, corporativo ou politico  sem que ambas as partes estejam minimamente cientes e comprometidas em ouvir e respeitar as regras da convergência de opiniões, como forma de benefícios de resultados e convivência harmônica para todos.


Nota final - Uma outra coisa que sempre leva a discussões divergentes,

refere-se a discutir opiniões pessoais.

Por exemplo: se uma pessoa nos fala que o governador estava presente na inauguração de uma determinada ponte, isso é um fato que não há o que discutir, a não ser que haja algum outro fato novo a ser acrescentado. 

Agora se alguém critica a construção daquela ponte naquele lugar indicando que deveria ter sido feita em outro lugar, isso é apenas uma opinião e as discussões divergentes a esse respeito são desnecessárias, infundadas e, na maioria das vezes, uma completa perda de tempo sem nenhum resultado prático … afinal a ponte já foi construída e até inaugurada não é mesmo?. 


Autor: Flavio Goulart Rodrígues)

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