Outro dia fiz uma pesquisa em um chatbot de IA sobre uma certa denúncia de corrupção de determinado político, e obtive a resposta de que não poderia obter aquela informação, pois havia restrições legais para aquele tipo de conteúdo. Procurei outro chatbot e fiz a mesma pergunta, obtendo a resposta que precisava. Resolvi voltar ao primeiro e contar o resultado (de forma provocativa, confesso), e lhe mostrei a resposta de seu concorrente.
Sua resposta foi: "Que ótimo que conseguiu o que você precisava, Flávio" — como se fôssemos velhos amigos, e tivesse ficado feliz por eu ter encontrado o que procurava. E completou: "Se precisar de mais alguma ajuda, estarei aqui à sua disposição".
Que resposta simples… sem nenhuma reatividade emocional (como não poderia deixar de ser, é claro!). Ou seja, ao contrário de nós, humanos, ele não fez uma leitura das minhas intenções, nem se importou em defender posições ou pontos de vista.
Pensei: como o mundo seria melhor se as pessoas interpretassem os fatos e opiniões alheias dessa forma não subjetiva. Ao contrário, as relações humanas são frágeis demais e se despedaçam como cristal por palavras ditas e mal interpretadas — justamente porque as pessoas parecem ser sensíveis demais ao que o outro disse ou ao que deixou de dizer. Amizades de longos anos são perturbadas por opiniões e palavras proferidas em momento de destempero, jogando na lixeira anos de relacionamento e bons momentos vividos juntos.
O filme "O Primeiro Mentiroso" narra uma comédia que se passa em um hipotético mundo parecido com o nosso, com apenas uma diferença: lá não existiria a mentira. Não porque as pessoas fossem proibidas de mentir, mas porque elas não teriam a capacidade de inventar algo que não fosse a mais pura verdade. Esse filme traz mensagens muito profundas a respeito da forma como interpretamos o mundo; entre elas, o fato de que, ao contrário do nosso mundo, os personagens do filme não se importavam absolutamente com nada que o outro dissesse, mesmo que fosse desagradável ou ofensivo.
“Palavras são palavras, nada mais que palavras” é uma frase popular que nos diz que as palavras só têm o significado que atribuímos a elas. As palavras, por si só, não deveriam ser como cápsulas com cargas emocionais que se dissolvem e liberam seu conteúdo no momento em que as absorvemos.
Outro dia, em um telefonema no qual uma pessoa me explicava um procedimento que ela tinha grande conhecimento, em dado momento eu a interrompi e disse que não havia entendido. Ela, sem conseguir esconder sua irritação, vociferou: "Mas o senhor é burro mesmo, hein?" Só que, em vez de me ofender com suas palavras “rudes”, achei engraçado e pedi que continuasse a explicação. Não que eu seja uma pessoa equilibrada e controlada — longe disso —, mas porque nunca ninguém antes havia me chamado de burro, e ainda mais daquela forma intempestuosa.
Isso é comparável a chamar uma pessoa magra de “gorda”. Para ela, isso soará como uma divertida ironia sem importância. Mas, e se for uma pessoa com problemas de excesso de peso ou insegura com o próprio corpo? Nesse caso o comentário poderá ser extremamente ofensivo.
Mas o que mudou? Apenas a forma como as palavras foram interpretadas, e não o que foi dito.
Quando andamos pelas ruas ou caminhamos em um parque, ouvimos, o tempo todo, pessoas reclamando e falando mal de alguém. As conversas quase sempre se referem a diálogos nos quais o narrador fala de forma que não haja nenhuma dúvida que ela esteja correto em sua análise, e o quanto a outra pessoa merece seu desprezo por palavras ou atitudes que disse ou fez. Só que o valor atribuído às palavras só existe na cabeça de quem as interpreta. Possivelmente, a outra parte está, ao mesmo tempo, contando para alguém outra versão, sentindo-se igualmente ofendida e no direito de retaliação verbal.
O estoicismo é uma filosofia grega que diz basicamente o seguinte: "Nós não reagimos aos acontecimentos pura e simplesmente; nós reagimos aos nossos julgamentos a respeito dos acontecimentos".
Se trocarmos “acontecimentos” por “palavras”, poderemos chegar à seguinte conclusão: assim como os acontecimentos, os conflitos gerados pelo que alguém disse envolvem três fases. Não apenas duas (palavras ditas versus reação). Primeiro, existe as palavras; depois, um julgamento a respeito do que foi dito; e, por último, a reação. Esse julgamento depende sempre de nossos referenciais. Ou seja, do que aquilo que foi dito, e da forma como foi dito, significam para nós.
Nosso julgamento sobre algo que alguém nos disse depende da impressão que temos diante do que ouvimos, e isso é apenas um ponto de vista que nós mesmos construímos. Portanto, o que pensamos sobre algo que nos foi dito tem muito mais a ver conosco do que com palavras proferidas ao vento.
Meu neto de cinco anos levou uma reprimenda da mãe, que o colocou de castigo, sentado inconsolável em uma poltrona no canto da sala. Eu me aproximei para tentar acalmá-lo. Sua reação, inesperada no entanto, me surpreendeu: com toda a raiva que ele sentia naquele momento, me disse com expressão ríspida no olhar: "Sai pra lá, vovô… me deixa!" Levantei as mãos e espondi apenas: "Está bem", e me afastei.
Depois, fiquei refletindo: por que suas palavras não me ofenderam? Ao contrário, interpretei como: "Tudo bem, ele está chateado e nervoso… melhor deixá-lo se acalmar".
Mas e se fosse um adulto reagindo da mesma forma agressiva diante de minha tentativa de ajudar? Qual seria minha reação? Certamente, não seria tão compassiva.
O que mudou? As palavras, hipoteticamente, seriam as mesmas.
Resposta: o que mudou foi a forma como foram interpretadas dentro de um determinado contexto: “vovô carinhoso e netinho triste” ou “ofereci ajuda e fui hostilizado pelo ingrato?”.
Tanto quanto possível, não devemos nos afastar de pessoas com quem temos dificuldades de relacionamento, pois elas são importantes para nosso aprendizado, na medida em que nos ajudam a reconhecer nossas fraquezas. Mas devemos avaliar o nível do relacionamento em que estamos envolvidos.
Se for um relacionamento linear, no qual ambas as pessoas estão no mesmo nível hierárquico, podemos usar as adversidades para aprender a ocupar o nosso espaço e descobrir como lidar com essa pessoa. Talvez até conquistando sua confiança e amizade. É nesse espaço que se aplica o contexto deste ensaio: compreender como as palavras podem nos sensibilizar e fazer os devidos ajustes para evitar reações impulsivas.
Mas, quando se trata de um relacionamento assimétrico e vertical, no qual o peso das decisões está concentrado em apenas uma das partes e à outra resta apenas submeter-se à vontade e às determinações do outro, e ainda estamos em situação de opressão, então a opção de se afastar ou buscar outra alternativa razoável poderá ser a escolha mais acertada e vantajosa.
Mas no fim, não são as palavras que nos ferem, mas o eco que permitimos que ressoe dentro de nós.
Autor: Flavio Goulart Rodrigues
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Análise Literária e guia de leitura sobre o texto (chat GPT)
O "Ensaio sobre o palavras e reações" conduz o leitor por uma reflexão sobre a natureza das palavras, questionando sua suposta carga intrínseca de sentido ou valor. O texto propõe que as palavras, por si mesmas, são neutras — meros recipientes vazios — e que somos nós, através de nossa intenção, contexto e interpretação, que preenchemos esses recipientes com significado.
Essa abordagem convida o leitor a pensar sobre o papel ativo que desempenhamos na comunicação. Ao invés de acreditar que certas palavras carregam automaticamente conotações positivas ou negativas, o ensaio sugere que é nossa própria percepção que as reveste de valor. Isso inverte a noção comum de que “palavras machucam” ou “palavras curam” por si só. O que realmente fere ou cura é o uso consciente ou inconsciente que fazemos delas, e a forma como são recebidas.
No plano simbólico e filosófico, essa visão dialoga com a filosofia da linguagem de autores como Saussure e Wittgenstein, que defendiam que as expressões linguísticas não possuem valor intrínseco — seu significado nasce do uso e do contexto. Há também uma afinidade com a "Comunicação Não Violenta", de Marshall Rosenberg, que afirma que não é a palavra isolada que causa impacto, mas a intenção que a acompanha e a interpretação que dela se faz.
A metáfora do "vaso vazio", presente em tradições orientais, ajuda a visualizar essa ideia: o recipiente, por si só, nada contém; é o conteúdo que nele colocamos que determina seu valor. Da mesma forma, uma palavra pode ser preenchida com compaixão, ironia, hostilidade ou afeto — e essa escolha está sempre em nossas mãos.
Ao compreender que o peso das palavras não é fixo, mas atribuído, o leitor é convidado a assumir responsabilidade pela forma como interpreta e reage ao que ouve, reconhecendo que o sentido das palavras nasce menos da sua origem e mais da maneira como são recebidas e elaboradas internamente.
E, nesse mesmo movimento, percebe-se que o silêncio, a pausa e a escuta não são ausência de expressão, mas também formas deliberadas e poderosas de transmitir significado.
Leia o livro "EU SOU VOCÊ… (do mesmo autor)