O irmão Calor


O livro O Irmão de Assis (de Ignacio Larrañaga) relata que, em seu leito de morte, São Francisco tranquilizou os que por ele choravam, dizendo:
“Bem-vinda seja ‘irmã morte’, feliz quem a recebe em paz”.

Quando li essa obra, que narra sua história, não em um estilo dogmático ou religioso, mas como a trajetória de um homem que, certo dia, despertou “enlouquecido” pela percepção viva da presença do Criador por trás de todas as coisas — percebi que seu legado era uma rara expressão de panteísmo cristão, em sintonia com o espírito contemplativo do caminho do Zen, que busca perceber este mundo como manifestação de uma força criadora presente em cada ser vivo e em cada elemento da natureza.

No famoso Cântico das Criaturas, São Francisco exalta o irmão Sol, a irmã Lua, a irmã Água e a irmã Terra, reconhecendo-os como parte de uma mesma família sagrada. Essa ternura se estende também às adversidades, culminando na serena saudação à irmã morte — um dos mais belos testemunhos de sua visão de que a paz interior nasce de abraçar a vida em todas as suas formas e manifestações, com amor e gratidão.

As crianças crescem ouvindo os adultos reclamarem de tudo, o tempo todo, e aprendem desde cedo a classificar, a rejeitar e a evitar essas coisas. E assim constroem um olhar seletivo, que separa o mundo entre o que consideram bom e desejavel e o que consideram ruim e desagradável.
Aos poucos, criam, em silêncio, uma lista interminável de coisas que não gostam. E assim, a vida passa a ser uma corrida insana em busca de seu oposto, que classificamos de “agradáveis e desejáveis ”.
Mas o que gostamos ou não gostamos, quase sempre são apenas hábitos mentais de coisas que aprendemos a gostar ou não gostar.

Desde menino aprendi a odiar o calor escaldante dos verões com temperaturas de quarenta graus à sombra da cidade onde nasci e me criei, até o dia em que li sobre o caminho espiritual de Francisco de Assis e sobre como ele via bondade em todas as coisas.
A partir daí, passei a chamar essas altas temperaturas que tanto me afligiam de “irmão Calor”.

Em dias muito quentes, quando todos pareciam desesperados em busca de sombra e brisa fresca, eu entrava no meu carro que ficara exposto ao sol, com temperatura interna acima de cinquenta graus, e ficava ali parado, com as janelas fechadas por um certo tempo, me harmonizando com aquele calor e sentindo profundamente seus efeitos, sem rejeitá-los.
Desde então, nunca mais reclamei do calor. Não porque ele deixou de existir, mas porque deixou de me incomodar.

O que podemos aprender com isso?
Que nosso corpo reage muito mais à impressão que aprendemos a ter das coisas, do que daquilo que elas realmente são.
E, quando percebemos isso e nos libertamos da programação que nos aprisiona,  podemos levar essa compreensão para um nível mais profundo: para nossos estados emocionais.

Da mesma forma que aprendemos desde cedo a rejeitar sensações físicas de desconforto, aprendemos também a rejeitar estados emocionais de tristeza, solidão, ansiedade, desânimo, tédio e medo, que aprendemos a classificar como abomináveis.
E, assim como as sensações físicas que se tornam insuportáveis quando as rejeitamos, os estados emocionais também se tornam dolorosos quanto mais fugimos deles.
Se, ao contrário, aprendemos a nos apaziguar diante deles, sem lutar contra a sua presença, começamos a vê-los como parte do fluxo natural da experiência humana.

A vida, afinal, é como um espelho que reflete o nosso interior. Se a mente está agitada, tudo parece confuso e ameaçador, mas quando aceitamos a tristeza, a solidão, o tédio e o vazio interior sem rejeitá-los, algo muda: eles permanecem ali ainda por um certo tempo, mas já não nos importamos mais com eles.
Por fim, a própria tristeza sorri para nós também.

Autor: Flavio Goulart Rodrigues

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Analise Literária e Guia de Leitura 

(Chat GPT)

O texto conduz o leitor da inspiração espiritual à reflexão prática, usando São Francisco como ponto de partida para um aprendizado universal: a "aceitação das adversidades", como aprendizado de nossas limitações. 

1. Estrutura

Contexto espiritual — referência a São Francisco e seu panteísmo cristão, e afinidade com o caminho do Zen.

Observação social — como aprendemos a rejeitar desde cedo o que nos é ensinado a ver como sendo coisas desagradáveis.

Experiência pessoal — o “irmão calor” como metáfora prática.

Ampliação — ligação entre desconforto físico e estados emocionais.

Conclusão — aceitação como fonte de paz interior.

2. Estilo

Linguagem simples, direta e reflexiva.

Uso de símbolos que aproximam conceitos abstratos da vivência pessoal (“irmão calor”, “espelho”).

Tom convidativo, que propõe reflexão sem impor aforismos.

3. Temas e Símbolos

Unidade com a natureza e integração com todas as formas de manifestação da vida.

Aceitação do desconforto como exercício de liberdade interior.

Reflexo entre mundo interno e percepção do mundo externo.

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Leia o livro "EU SOU VOCÊ… (do mesmo autor)

https://a.co/d/dTDdeMM


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