A intenção

 



Homens que passam a noite no bar . — Foto © gstockstudio #49602455


Um jovem estava completamente apaixonado por uma moça que o rejeitava. 

Um amigo confidente lhe disse que ela o rejeitava porque ele a sufocava. 

−  As mulheres podem perder o interesse por um pretendente se perceberem que ele está de quatro por elas.

−  O que devo fazer então, não sei o que fazer quando estou na presença dela?

−  Do ponto de vista animal os machos foram dotados com a capacidade de fertilizar centenas de fêmeas em um ano se assim o quiserem (... e tiverem a oportunidade!). Já as fêmeas só podem conceber uma única vez por ano, e, portanto, precisam encontrar um parceiro que tenha força e virilidade para cuidar dela e de sua prole. Por isso elas são tão cuidadosas na escolha de seus parceiros; por estarem mais preocupadas com a qualidade; ao contrário dos machos que estão mais interessados na quantidade.

Tudo o que os homens fazem para conquistar uma mulher não passam de penas coloridas e Jubas para lhes atrair a atenção, mas no final mesmo são elas que os escolhem; e as mulheres tem um feeling que lhes dirá qual o parceiro certo que ela procura. 

Pensando nisto, a primeira coisa que você precisa fazer para ter alguma chance de ter a atenção desta garota, é não demonstrar demasiado interesse por ela. 

Passado algum tempo os dois se reencontram e o amigo pergunta sobre a garota. O rapaz diz um tanto desolado, ter desistido dela, pois concluíra que ela não o escolheria nunca. Parece mesmo que ela já teria outros interesses.

−  Você sabe porque ela ainda continua a não ter interesse por você? Perguntou o amigo.

−  Sei lá… acho que eu não faço o tipo dela, ou ela tem outra paixão… vai saber! Respondeu o “inconformado Romeu”

−  Não! Na verdade é mais simples do que você imagina, ou mais complexo dependendo do seu amor por ela.

−  Meu amor? Cara, eu faria qualquer coisa por ela.

−  Você tentou não demonstrar tanto interesse por ela, conforme eu lhe disse?

−  Sim, mas foi pior ainda, pois minhas chances que eram poucas, passaram a ser nenhuma. Sinto informá-lo, mas sua técnica não surtiu nenhum efeito.

− Todo o seu problema - retomou o amigo- se resume, a grosso modo, numa coisa chamada “intenção”. Os relacionamentos sociais são muito complexos, principalmente porque não tem uma regra definitiva, e nem padrões de comportamento confiáveis. A” intenção” nos possibilita fazer uma coisa desejando conseguir outra. Em alguns grupos de macacos selvagens, onde somente os machos alfas podem copular com as fêmeas, já foi observado, que machos subalternos oferecem iguarias, como ovos ou filhotes de pássaros, como agrado às fêmeas no cio, com a “Intenção” de obter alguns favores sexuais.

−  Você está sugerindo, que eu a agrade com presentes? Já tentei também, e ela não deu a mínima para isso.

O amigo sorriu e completou:

−  Quando eu lhe orientei a não demonstrar interesse por ela, era para dar a ela o direito de lhe escolher, mas certamente você foi desmascarado.

−  Desmascarado como?

−  Sim! Na verdade, as pessoas têm uma percepção intuitiva para perceber a intenção por trás de uma ação. E as mulheres têm mais sensibilidade ainda. Talvez porque as mulheres possam perceber instintivamente que, ficar babando por uma fêmea, não seja lá a atitude de um macho dominante e portanto, não seja ele o portador de bons genes para sua prole. No caso da macaca no cio, se fosse uma mulher certamente pensaria: - Aí tem! Por que esse cara está me oferecendo isso? Isto é o que podemos chamar de “ser desmascarado”

Tem uma passagem bíblica onde Jesus diz: “...ao fazer caridade, não saiba a tua mão esquerda o que faz tua mão direita”. Ou seja, você precisa esconder de você mesmo a sua intenção. No caso bíblico se trata de passar da condição de egoísta, que quer doar com intenção de receber benesses divinas como pagamento pela caridade, para a condição de altruísta que só tem a intenção de doar, sem receber nada em troca. Não se trata, portanto, de esconder o propósito dos outros, mas antes, de si mesmo. No seu caso, mesmo que você demonstre que aparentemente estivesse desinteressado por ela, uma parte de você continua ainda querendo conquistá-la e você não consegue esconder. Isso é o que se chama “linguagem não verbal”. Conquistar é uma atitude egoísta, pois você está querendo algo para si, mesmo que seja o amor de uma pessoa.

−  Então não vejo solução neste meu caso, pois temos aí um paradoxo. Como eu farei isso, se eu ainda a estarei desejando? E se eu parar de desejá-la, então não terei mais interesse nela!

−  Não sei como você fará, pois isto é um feedback, logo é um mecanismo cognitivo que você precisa aprender do seu próprio jeito como fazer para controlá-lo. Mas o segredo é a “intenção”, e não o desejo, que são coisas diferentes. Em Cabala se aprende uma metáfora para representar a “intenção” na relação entre o Criador e a alma humana em busca do paraíso: 

“À um homem (Adam Rishon, o Adão em Gênesis) todos os dias, é oferecido um banquete no qual ele pode comer até se fartar de tudo. A princípio ele sente muito prazer em receber a ágape, mas com o tempo, começa a perceber que o anfitrião (O Criador) sente muito prazer em vê-lo regalar-se e passou a desejar sentir o mesmo, porém nada tinha a oferecer que o anfitrião já não o tivesse. Frustrado em não poder retribuir (O que os Judeus chamam de “ o pão da vergonha” quando se recebe algo e nada têm para retribuir), afastou-se do banquete divino, o que causou enorme tristeza no anfitrião. Logo o homem percebeu então que tinha algo a oferecer. Ao comer, ele estaria doando ao anfitrião o prazer de vê-lo comer. Isto é um exemplo de mudança de intenção. Pois o convidado finge agora que seu propósito é receber, mas a intenção é doar (mas com o propósito ainda de receber). Com isto ele satisfaz todos os desejos, tanto o seu de não receber sem dar nada em troca, como o do anfitrião que se regozija em ver o prazer de seu comensal. Os dois neste caso estão doando e recebendo simplesmente pela mudança de intenção do convidado.

−  Deixe-me ver se entendi: eu continuo a desejá-la, mas crio uma intenção de não mais a querer? Isto é possível? 

−  Sim, na verdade você já está fazendo isto no momento que já desistiu dela, mas ainda está apaixonado. Foque nisto! Você desistiu dela e não a quer mais para si. O próximo passo é quando a encontrar ser gentil com ela, mas esconder de você mesmo que a deseja, e se convencer que não a quer mais para si. Considere que “sua mão esquerda não saiba o que a direita faz” . Se você não esconder seu desejo de você mesmo, ela perceberá que você está babando desesperado por ela.

−  Isto parece bem difícil, não? Como saberei que eu consegui isso?

−  Ela será seu diapasão. Quando você mudar sua intenção ela o verá e demonstrará interesse por você. Lembre-se, não depende de você, a escolha é dela! Mas esqueça isso também, pois até a mais remota esperança poderá ser seu fracasso. 

Boa Sorte!


autor: Flávio Goulart Rodrigues 


 

 

 


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