A jornada do heroi
Somos claramente impulsionados por duas forças, opostas e antagônicas, que lutam incessantemente em nosso interior. Uma é instintiva e animal, a outra é racional e intelectual
Tem uma crônica que conta um diálogo entre um pastor e um nativo. O pastor pergunta ao nativo como ele conduzia sua vida espiritual (ou algo semelhante) O nativo lhe disse que todos os dias quando acordava começava uma luta, em seu interior, entre dois cães: um bom e pacífico e o outro mau e violento.
‒ E qual dos dois vence? ‒ Quis saber o Pastor.
‒ Aquele que eu alimento mais ‒ Disse o nativo.
Me parece que a doutrina da evolução natural é a melhor explicação para esclarecer a origem das espécies. Considerando-se ainda que ela não nega, necessariamente, a existência de uma mente inteligente que podemos supor estar por trás da própria evolução das espécies.
Algo aconteceu em nosso passado como se tivéssemos pegado uma carona e nos incorporado em um animal dentro da natureza. A própria antropologia determina um período na pré história quando começaram a aparecer sinais da genialidade humana. Depois de milhares de anos de evolução, há uma grande explosão de criatividade, a que os antropólogos classificam de revolução cognitiva, quando o homo sapiens desenvolveram a capacidade de pensar de forma simbólica e abstrata e a imaginar e construir todo tipo de ferramentas e utensílios domésticos que não existiam.
Só que o tempo, que nos separam deste marco (70.000 a 50.000 anos) é quase nada, geologicamente falando. O resultado é que nos tornamos um ser intelectual e racional com o corpo de uma criatura primitiva com instintos animais.
Estudos recentes em neurociências sobre a evolução e desenvolvimento do cérebro concluiu que ao longo de milhares de anos nossas capacidades cerebrais foram se aprimorando e se desenvolvendo sobre capacidades anteriores.
Tal como em uma casa construída sem um projeto definitivo, o cérebro teria sido construído aos poucos como se fossem puxadinhos que edificamos sobre áreas já construídas. O resultado é que nosso cérebro evolui como um prédio erguido sobre alicerces e paredes antigas que continuam ali a nos influenciar.
Por isso o que queremos às vezes nos parece tão difícil de realizar. Nos programamos para acordar às cinco horas da manhã, mas nosso corpo parece que não concorda com isso e insiste em continuar dormindo. Precisamos perder peso, mas o “outro” não concorda em parar de comer. E poderíamos citar diversos exemplos de nossa dualidade.
Outro dia eu perguntei a uma amiga psicóloga porque eu sempre sonhara com a morte de meus filhos? Ela me respondeu que isto era natural. Que os pais sonham com a morte dos filhos porque instintivamente percebemos que a criança inocente está morrendo à medida que cresce e se torna adulto.
No filme Jumanji (1995) Alan Parrish (Robin Williams) é constantemente perseguido por um caçador que está sempre querendo lhe matar com uma bacamarte enorme. O mais curioso é que o ator que interpreta o caçador é o mesmo ator que interpreta o pai do protagonista (um easter eggs tentando mostrar o arquetipo do pai querendo extrair o homem do menino). Numa das vezes em que ele revida a agressividade do caçador, este surpreso lhe diz: “Finalmente deixou de ser um molenga... vamos lá... seja homem de verdade e lute... e tome-lhe tiro! numa alusão de como o arquétipo do pai tenta matar o menino para que nasça o homem.
No filme “Até o limite da honra” é retratado o treinamento extremamente rude usado aos novos recrutas dos Fuzileiros Navais com a intenção de que se manifeste o intrépido soldado herói; sendo necessário, para isto, extirpar a fragilidade da natureza humana. No treinamento o capitão está sempre lembrando aos soldados, nos momentos mais difíceis, de que a única coisa que precisam fazer, para se livrarem da dor e do sofrimento, é tocar um sino que está sempre presente.
‒ Lembrem-se – diz o capitão, a todo momento ‒ a única coisa que vocês precisam fazer é tocar aquele sino, e voltar para casa onde uma cama quentinha lhes aguardam. Obrigando seus soldados a digladiarem um verdadeiro combate interior com suas fragilidade e medos.
Numa guerra somos postos a prova, e temperados numa forja. Numa guerra não sobrevive apenas o que destrói o inimigo que quer matá-lo, mas antes aquele que supera seus medos e seus inimigos interiores.
No filme “Três Reis” (1999) o capitão diz para um soldado:
‒ Primeiro você enfrenta seu medo, depois você cria coragem!
‒ Mas não deveria ser o contrário, capitão?
‒ Sim, mas é assim que funciona!
A humanidade sempre esteve envolvida em guerras e nas guerras não há lugar para os fracos. Então as guerras acabaram funcionando como uma espécie de “seleção natural” onde sobrevivem apenas os mais capacitados (não necessariamente os mais fortes).
Já trabalhei em vários lugares e com muitas pessoas diferentes. Gente boa e gente muito má. Já convivi em obras com ex-detentos, viciados e traficantes. Na maioria das vezes, eu estava na condição de encarregado de obra, o que me colocava sempre em uma situação muito delicada.
Certa ocasião, assumi a coordenação de uma equipe de drywall na construção de um edifício onde trabalhavam vários empreiteiros sem nenhuma organização. Quando cheguei no local, descobri que a situação era bem mais caótica do que haviam me reportado, pois os homens não tinham disciplina nenhuma e estavam completamente revoltados com a construtora responsável pela obra. Esta, tinha dezenas de normas de segurança que eram sistematicamente negligenciadas pela equipe, o que ocasionava medidas punitivas e paralisações dos serviços, que por sua vez ocasionavam mais protestos e reclamações.
Quando tentei tomar pé da situação e criar alguma norma para dar prosseguimento aos trabalhos com um mínimo de organização, fui hostilizado por alguns homens que não reconheciam a minha autoridade e, de repente, eu estava em uma situação de muito estresse. Em um destes dias, um homem pegou um porrete de madeira e bateu diversas vezes, violentamente, contra uma pilha de caixas, dizendo que estava com vontade de quebrar a cabeça de alguém. É claro que ele se referia a mim, e isso me deixou muito preocupado.
À noite, em casa, não conseguia dormir, pois estava agitado e preocupado demais com o próximo dia, sem saber como lidar com aquela situação ou como enfrentar aquele sujeito que era muito maior, mais forte e violento do que eu, e que certamente percebeu minha fraqueza e meu medo, e iria tirar proveito disso. Sabia também que o fato de eu ter medo dele era algo que eu não poderia esconder e que isso fatalmente me colocaria em risco quanto à minha integridade.
Deitado em minha cama, agitado e incapaz de dormir, contemplando minha agitação, percebi que aquele era um ambiente de guerra. Meus instintos, ou seja, aquela minha parte animal que me carrega e que às vezes eu costumo chamar de “meu cavalo”, não percebem nenhuma diferença entre um perigo virtual e um perigo real. Para “meu cavalo”, amanhã nós entraríamos em um combate violento de vida ou morte com meu inimigo, e eu teria de matar ou morrer e dadas as circunstâncias e características do meu oponente, parecia-me que o mais provável era que eu levaria a pior.
Percebi que eu estava travando então uma outra batalha em meu interior, na qual minha mente criava um ambiente virtual, imaginário e, de certa forma, inverossímil.
Em nossa sociedade moderna, não temos mais lutas sangrentas até a morte. Fora alguns casos de descontrole, as pessoas não saem mais por aí se matando em combates com pauladas ou gládios. Logo, o perigo de aquele homem me atacar com aquele porrete era praticamente inexistente, mas o medo causado pelas percepções equivocadas de “meu cavalo” eram o que estavam causando um estrago enorme em meu interior. Na verdade, eu era quem estava assustando meu cavalo ao criar aquele drama mental.
Eram duas situações distintas: uma era o fato de o homem tentar me intimidar, ameaçando me bater com um porrete, e eu teria de tomar algumas providências para me proteger. A outra situação era emocional e estava causando um estrago muito maior em meu interior.
No passado, os homens passavam por provas como essas, só que em guerras sangrentas e combates até a morte. Então, me dei conta de que aquela obra era a minha “guerra psicológica”, onde eu poderia superar minhas fragilidades sem correr o risco real de morrer em combate.
Concluí então (para minha grande surpresa) que a pessoa mais importante naquela obra para mim, naquele momento, era aquele homem rude e violento, pois ele me permitia recriar uma luta em meu interior onde eu poderia transcender meus medos. Ele era, portanto, o meu “ginásio psicológico” e estava, na verdade, me fazendo um grande favor.
Depois de compreender e criar uma outra imagem mais real da situação e do meu algoz, pude relaxar e dormir. Quando cheguei à obra, no outro dia seguinte, despachei os trabalhos sem dar muita importância àquele homem, que já não me amedrontava mais, por eu ter compreendido a relação dele no meu drama interior. E ele já nem me parecia tão grande e assustador! Eu estava, ao contrário, muito seguro em relação a ele, e fiquei muito surpreso quando, no final do dia, ele se dirigiu a mim, perguntando detalhes dos trabalhos para o dia seguinte, como se fôssemos velhos parceiros.
Olhei para ele e não reconheci mais nele aquele homem rude que imaginei que queria me bater com um porrete. Ao contrário, percebi o quanto ele era frágil e o quanto seus medos eram iguais aos meus. Senti uma sensação de contentamento por perceber que eu tinha, de alguma forma, mudado minha paisagem mental e, com isso, mudado uma cadeia de eventos externos tanto para mim quanto para ele.
Nota: “Meu cavalo” é a forma como as entidades de “Pretos Velhos” na Umbanda se referem ao médium que ele está incorporado. Criei esse epíteto ao perceber essa dualidade, na qual nosso eu racional (a voz que fala em nossa cabeça) estaria incorporado nessa criatura instintiva que ainda somos (o macaco em nós).
Autor Flavio Goulart Rodrigues
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