Efeito Halo e Horn

 

Efeito Halo e Horn


“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade“. Essa frase é atribuida a Joseph Goebbels, que foi ministro da Propaganda de Adolf Hitler na Alemanha. Foi dessa forma que o povo alemão, considerado um povo trabalhador, culto, educado e bem informado foi ludibriado a acreditar que todo o infortúnio do povo alemão que se abateu sobre a alemanha após o armistício da primeira guerra mundial era, em parte, culpa dos judeus e, através de uma propaganda perversa e falaciosa, obteve o apoio de seus concidadãos  para exterminar o que para eles passou a ser o “câncer da sociedade alemã” e, dessa forma, justificar um ódio desenfreado, levando à morte milhões de judeus.

De que forma se faz isso? Criam-se boatos que se espalham nos principais meios de comunicação: jornais, rádios, televisões, revistas e, atualmente, nas redes sociais, impulsionados por ferramentas multimídias; não havendo nenhuma preocupação quanto a veracidade dos fatos.

Esse sistema é de tal forma eficiente que as pessoas passam a acreditar piamente em coisas que não resistem a uma análise crítica, e nem elas sabem por que.

Lula é uma prova viva da eficácia desse  sistema. Afinal, por que as pessoas acham que Lula é corrupto e ladrão, mesmo não havendo nenhum indício de posses ou enriquecimento ilícito que justifique tal suspeita? Ele mora no mesmo apartamento há mais de trinta anos, não tem contas em paraísos fiscais, não tem fazendas, nem jatinhos e iates. Nada que não esteja rigorosamente dentro do declarado no Imposto de Renda e de acordo com os seus ganhos com salários que recebeu nos cargos que ocupou. Sua vida (e a de seus parentes e amigos) já foi completamente vasculhada, investigada e revirada pelo avesso pela Polícia Federal, que hoje se utiliza dos mais modernos e científicos métodos de investigação e pessoal altamente especializado; e nada, absolutamente nada foi encontrado que pudesse corroborar com os delitos a ele imputados.

Então, por que mesmo assim as pessoas acreditam que ele roubou?

As pessoas não sabem explicar como, nem porque, mas “têm certeza" que ele é corrupto e ladrão. Por quê?

Porque as pessoas podem estar, simplesmente, recebendo um “Combo” de informações direcionadas a elas com uma ideia já formatada, de maneira que as pessoas criem a ilusão de que são elas que  estejam tirando suas próprias conclusões, mas que, todavia, a ideia já esteja direcionada a ela com uma conclusão predeterminada.


Uma estratégia para se atingir esse propósito e que é largamente usada por políticos, advogados, vendedores e até em entrevistas de emprego é o que foi denominado pelo psicólogo norte americano Edward Thorndike como efeito Halo (Halo é aquela auréola da cabeça dos santos). O efeito Halo pode ser entendido em psicologia como sendo a possibilidade de que: "a avaliação positiva de uma parte resulte numa avaliação positiva do todo". Portanto, o simples fato de que alguém que lhe transmite alguma informação seja uma pessoa bem vestida, com uma boa fluência verbal,magnetismo pessoal e referências acadêmicas nos levaria instintivamente a aceitar que tudo o mais esteja de acordo com esse perfil apresentado, e isso inclui sua moral e suas ideias. O que muitas vezes pode não ser verdade! 

Desta forma uma pessoa com um status de formador de opinião; com um microfone na mão; sem nenhuma outra pessoa que possa se posicionar e apresentar um contraponto, e ainda; que seja uma pessoa popular; que fale a linguagem daqueles que estão ouvindo;  e mostrando “provas” que corroboram com aquilo que está falando, poderá convencer milhões de pessoas a acreditar em seus argumentos, mesmo sendo uma falácia.

O seu oposto é o que se pode denominar efeito Horn (chifres em inglês), no qual uma pessoa que se apresenta mal vestida ou tenha alguma dificuldade de dicção, ou não tenha boas credenciais, ou ainda que já tenhamos dela uma imagem previamente deturpada, nos levará a pressupor que todo o resto esteja de acordo com isso e não daremos ouvidos ao que quer que ela diga.

Considerando-se tudo isso, é presumível que as notícias informadas por Willian Bonner no Jornal Nacional ou os apresentadores da Globo News, todos jornalistas de sucesso no Brasil e no exterior, com figurinos elegantes e de muito bom gosto sendo mostrados em cenários ricamente decorados, produzam o efeito Halo nas pessoas, que sentem que as informações obtidas nesse meio só podem ser verdadeiras, bloqueando parte, ou totalmente, a predisposição à uma análise crítica. 

Por esse motivo, sempre que se começa uma entrevista telejornalística, o entrevistador primeiramente nos fala sobre as credenciais do entrevistado. Se ele for uma pessoa importante com diversos prêmios em sua categoria tendemos a ignorar nosso senso crítico e a aceitar de antemão de que o que ele diz é verdade e, na maioria dos casos, incontestável, mesmo que seja inverossímil o que ele esteja dizendo.

Outrossim, se uma pessoa não tem curso superior, descende das classes mais baixas da sociedade e está com uma imagem distorcida por informações que comprometem seu caráter, como é o caso de Lula, temos uma tendência a descartar qualquer informação que seja comunicada por ele, mesmo que esteja carregada de verdades.

Portanto se os jornalistas da Rede Globo dizem ou insinuam que Lula é corrupto e está envolvido em todo tipo de falcatruas e desvio de verbas públicas, e que comanda uma facção criminosa, mesmo que não haja nenhuma prova substancial que corrobora isso, e mesmo que Lula saia em uma campanha nacional tentando mostrar que nunca roubou um centavo sequer de ninguém (conforme ele mesmo diz), as pessoas tendem, num “efeito manada”, a concluir que ele está mentindo e que alguma coisa errada ele fez, apesar de não se saber como nem porquê (pois não há nenhuma provas nem evidência disto).

E Lula por falta de provas acabou sendo preso por “Atos indeterminados” ficando dezenove meses presos até a anulação do processo pelo STF.

Mas o que aconteceu com a opinião pública brasileira, depois desse novo julgamento onde foram anulados os processos condenatórios por apresentarem graves erros jurídicos, pode ser explicado através do trabalho de psicologia social descrito no livro When Prophecy Fails (Quando a Profecia Falha) baseado em um estudo feito a partir de um acontecimento ocorrido em Chicago no ano de 1954, onde Dorothy Martin, uma dona de casa, alegava ter se comunicado, através de cartas psicografadas, com seres superiores de um planeta distante chamado Clarion. Esses seres previam um dilúvio de proporções apocalípticas que aconteceria na madrugada do dia 21 de dezembro daquele ano e que, em tal dia, uma nave espacial alienígena viria resgatar as pessoas eleitas. Criou-se, a partir daí, uma comunidade de pessoas crentes de que tal profecia iria de fato acontecer. Muitas dessas pessoas, envolvendo-se de forma intempestuosa no grupo, largaram o emprego, abandonaram suas famílias, romperam relacionamentos e se desfizeram de bens materiais.

Mas o dia 21, todavia, transcorreu normalmente, sem chuvas e sem naves espaciais.

Mas o que houve com a crença dos devotos diante do fato de que nada aconteceu, é um capítulo à parte dos estudos, que mostram que, quando as pessoas depositam suas vidas na crença de algo, mas a realidade, confrontada com suas crenças, lhes mostram outra coisa bem diferente, a frustração inicial pode converter-se logo em seguida em uma nova interpretação dos fatos. No caso em questão, uma outra mensagem psicografada deu-se por conta de que as orações do grupo, durante aquela noite de vigília, criaram tanta luz que a população da Terra teria sido poupada da catástrofe. E o que era para ser uma grande desilusão e dissolução do grupo tornou-se uma prova de que suas crenças eram verossímeis, criando-se uma nova abordagem e fortalecendo a fé e o engajamento dos devotos.

Estes e outros fenômenos de comportamento similares, que ocorrem na forma como os seres humanos interpretam subjetivamente a realidade, que são estudados pela psicologia e pela neurociência, e podem ser notados tanto nas crenças religiosas quanto em ideologias políticas, tendo sido inúmeras vezes usados como objetivo de conduzir as massas através da manipulação da opinião pública.

E desta forma as pessoas que acreditaram na delinquência e desonestidade de Lula baseado nas informações divulgadas pela grande mídia,  e por centenas de podcast e pelas instituições que o condenaram, Não conseguem mudar de ideia mesmo quando as mesmas fontes que o condenaram vieram a publico declarar que havia sido feito um grande erro jurídico baseado em um processo cheio de falhas onde um inocente havia sido condenado.

Assim como os seguidores de Doroty Martin as pessoas não suportam a ideia de que foram enganadas e que suas convicções estavam equivocadas. Uma nova abordagem é então criada para que possam continuar justificando suas crenças, mostrando-lhes que as mesmas mídias e as instituições que antes acusavam o réu e que eram totalmente confiáveis, estariam agora suspeitas de estarem conspirando contra a nação, criando-se então uma nova abordagem, renovando e fortalecendo suas crenças. 

O Efeito Dunning-Kruger é um fenômeno cognitivo, demonstrado numa série de experiências realizadas por Justin Kruger e David Dunning, à época investigadores da Universidade de Cornell, no estado de Nova York. Esses estudos demonstraram que pessoas com baixo desempenho em determinadas áreas tendem a não ter capacidade para avaliar adequadamente sua própria incapacidade. Ou seja, sua própria inaptidão no assunto lhes impede de enxergar suas limitações. 

Nota – “Incapacidade” aqui mencionada pode significar que não temos acesso à informações diretas e totalmente confiáveis dos quais possamos fazer um juízo de valor adequado.

Da mesma forma, devemos considerar que nossas ideias ou conclusões sobre algo poderão estar erradas se nossa capacidade de autoavaliação estiver baseada nos mesmos pressupostos falsos ou equivocados que nos levaram a concluir aquilo

Sendo assim, mesmo Lula inocentado de todas as acusações; libertado da prisão; vencendo as eleições; sendo considerado um dos homens mais importantes no mundo todo; recebido com pompa de grande estadista pelos mais importantes líderes mundiais e ainda assim sendo chamado de ladrão, cachaceiro e corrupto por uma parcela da sociedade brasileira que não conseguem se desfazer de uma ideia equivocada consolidada em suas mentes.  

 

Autor: Flavio Goulart Rodrigues


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