Ficha para o Oftalmo
Quando sua mulher lhe disse que ele precisaria acordar às cinco horas da manhã, já perguntou bocejando:
– Pra que preciso acordar tão cedo?
– Tem que pegar ficha do oftalmo para o teu filho.
Ela disse, “teu filho”, para não haver nenhuma dúvida de quem deveria ser a tarefa.
Quando chegou às seis horas da manhã no local, já havia um aglomerado desordenado de pessoas em frente ao postinho de saúde.
Meio desorientado perguntou a uma senhora:
– Onde é a fila?
– Não tem ninguém com este nome aqui não, moço. Disse ela ironicamente.
Tentou sorrir, mas não tinha disposição para isto àquelas horas da manhã.
– Quem é o último da fila? Tentou ele de outra maneira.
– O último é o senhor. Disse a mulher, insistindo em não falar sério - Mas isto aqui tá uma bagunça tão grande, que ninguém sabe quem tá na frente de quem – Completou a mulher, finalmente falando sério.
– Eu preciso de uma ficha pro oftalmo...
– Só o senhor? Interrompeu ela. – Tem um bocado de gente aqui querendo. Aquelas pessoas estão aqui desde ontem – diz ela, apontando para um pequeno grupo de senhoras; as únicas sentadas, em um banco de madeira próximo da entrada.
Nisto abriu-se à porta e todos pararam de conversar e se espremeram em direção ao atendente que saía, mas que se limitou a tomar o banco das senhorinhas que tiveram de ficar em pé, e dizer alguma coisas que não deu pra entender, mas que pelos gestos queria dizer: Façam duas filas. E entrou novamente com aquele banco enorme debaixo do braço, fechando a porta atrás de si.
Começou então uma disputa, cada um tentando tomar a dianteira e pegar o melhor lugar. Mas no final continuou uma bagunça, pois haviam duas colunas, cada uma com duas filas cada.. Em alguns lugares da fila tinham até três pessoas uma ao lado da outra conversando.
Na dúvida, entrou numa das filas sem saber se estava no lugar certo, e perguntou:
– Esta fila é pra que?
– Sei lá, ninguém entendeu o que aquele moço falou. Responderam-lhe duas senhoras, em situação indefinida sobre quem estava na frente de quem.
Alguns mais exaltados reclamavam daquela situação, e já se ouvia discursos inflamados falando mal do governo.
Neste momento parou um táxi e desceu uma velhinha. Que já chegou gritando:
– Mas que bagunça é essa? Cadê a fila? Olhando sério para ele como que pedindo uma explicação.
– Acho melhor a senhora se acalmar, porque isto aqui está uma desordem, é verdade, mas não vai melhor se a gente não tiver uma pouco de calma – Disse ele para a velhinha que parecia querer lhe dar uma bolsada.
– Até piora. Completou ele, quando percebeu que a mulher se acalmara, e dizia com uma mão no peito:
– Ai meu Jesus, onde é que nós vamos parar.
Aproveitando a deixa, pediu licença, saiu da fila, e foi lá na frente para tentar obter melhor informação e identificar as filas, onde lhe informaram que uma fila era para exame e a outra era para médico.
Quando estava retornando para assumir seu lugar na fila, viu um senhor que parecia perdido e não sabia onde ficar. Tentando ajudar lhe pergunta:
– Pro senhor, é médico?
Mas o homem entendeu que lhe tivesse perguntado se ele era médico. É óbvio que pensou que estivesse caçoando dele, porque ficou um certo tempo pensando, tentando achar uma resposta a altura do deboche e então lhe respondeu:
– Não, não sou médico, mas se deixarem eu já assumo agora mesmo - Não deve ser difícil – acrescentou ele – É só assinar a certidão de óbito e mandar enterrar.
Voltou para seu lugar na fila, tentando não rir e manter a seriedade, pois achava aquilo tudo uma estupidez.
Foi então que alguém na fila, a sua frente, pergunta para um rapaz.
– Você vai consultar com o oftalmo também?
E o rapaz responde:
– Na atual situação, até um examezinho de fezes já me deixa contente.
A esposa não compreendeu e achou que ele estivesse maluco quando chegou em casa, rindo incontrolavelmente, dizendo que não tinha ficha para o oftalmo.
Autor: Flavio Goulart Rodrigues