O louco enxadrista

O Louco Enxadrista (crônica)

Em uma pesquisa científica de avaliação de comportamento, três homens são postos em uma cela para jogar xadrez com um louco maníaco e homicida que era um exímio jogador. Todos estavam temerosos, pois não se sabia qual seria a atitude do insano.

O primeiro jogador entrou e conseguiu dar um xeque-mate depois de mais de uma hora de uma partida intensa e cheia de estratégia. O louco, revoltado, quebrou o tabuleiro na cabeça do oponente, fê-lo engolir os dois cavalos e um bispo, e só não foi espancado até a morte devido à intervenção dos guardas.

O segundo homem entrou tenso e preocupado, e, baseado no que aconteceu com o outro jogador, decidiu perder deliberadamente a partida em poucos minutos. Mas antes que pudesse se levantar e sair, o louco pediu, com risinhos de contentamento, para jogar outra partida, que também venceu facilmente. O louco insistiu para jogarem uma terceira partida, e o resultado foi o mesmo. Percebendo a fraude, o louco levantou-se violentamente, quebrou o tabuleiro na cabeça do oponente, fê-lo engolir as duas torres e também o espancou.

O terceiro homem entrou, e depois de um jogo intenso e tático, tomou um xeque-mate. Mas antes que o louco terminasse de comemorar, ele realinhou as peças no tabuleiro e pediu revanche. O louco, surpreso, sentou-se, e usou todas as suas artimanhas para vencer, mas foi derrotado, para surpresa de todos, inclusive do insano, que, contrariado, também pediu revanche.

Depois de horas de jogo, o louco finalmente encerrou a partida com um brilhante xeque-mate. O homem, demonstrando estar irritado e fora de controle jogou o tabuleiro com as peças pelos ares, esmurrou a mesa e saiu da sala incólume, ouvindo as gargalhadas de delírio do insano.

Autor: Flávio Goulart Rodrigues

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Análise literária e guia de leitura.

"O Louco Enxadrista": e a lógica do sucesso

A crônica "O Louco Enxadrista" é uma  parábola que transcende um mero jogo de xadrez para explorar a psicologia humana diante das adversidades, no “tabuleiro” da vida, onde as regras são incertas e as ameaças são reais.

A história de três homens nos mostra que a vitória pode ser uma faca de dois gumes e que nem sempre é a melhor estratégia. E a recíproca também é verdadeira.

A narrativa apresenta três reações distintas a um mesmo desafio, cada uma refletindo uma abordagem filosófica e psicológica diferente:

 O Vencedor (O Idealista): O primeiro jogador, guiado pela lógica e pelo ideal de vitória, joga para vencer. Ele segue as regras do xadrez, mas ignora a natureza imprevisível e violenta de seu adversário. Sua vitória se torna uma provocação que o leva à punição, provando que a adesão cega às regras pode ser perigosa em um ambiente irracional.

O Perdedor (O Conformista): O segundo homem opta pela submissão, perdendo a partida de propósito na esperança de apaziguar o louco. Sua estratégia de conformismo, no entanto, é vista como uma “fraude” e insulta o adversário. A submissão não o protege, mas o expõe a uma violência ainda mais brutal, mostrando que fugir do conflito a qualquer custo não é garantia de segurança.

O Estrategista (O Pragmático): O terceiro homem é o único que compreende a dinâmica real da situação ao perceber que o jogo não estava sendo jogado no tabuleiro, mas dentro da cela onde ele estava preso com um louco. Ao pedir revanche, deliberadamente após perder, ele quebra o roteiro esperado pelo louco e o surpreende. Sua estratégia não foi nem vencer, nem perder: foi ampliar o jogo para fora do tabuleiro, onde seu adversário não sabia jogar!

Moral da história: Nem sempre na vida o jogo é o que estamos jogando. A solução pode estar fora dele.

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Leia o livro "EU SOU VOCÊ… (do mesmo autor)

https://a.co/d/dTDdeMM





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