O mundo dos sonhos
Em nossos sonhos, vivemos uma
experiência do ponto de vista de uma personagem com características semelhantes
às nossas, que pensamos ser nós mesmos, dentro de um cenário que confundimos,
durante o sonho, com nossa própria realidade. Mas quem, de fato, cria esse
cenário, esse “avatar” que representa o meu “Eu” no sonho, e as outras pessoas
que interagem comigo é minha própria mente. Então, a pessoa que está vivendo no
meu sonho, achando que sou eu, é apenas uma criação de minha mente adormecida
que projeta e controla todo o drama. Dessa forma, para a minha mente, que cria
toda a narrativa do sonho, não existe nenhuma diferença entre o personagem que
me representa e as outras personagens do meu sonho, pois, em essência, tudo é
construído do mesmo material “virtual” (se é que podemos chamar assim).
Todavia, o meu “Eu” no sonho acha que ele é quem toma as decisões e que o mundo
dos sonhos e as outras pessoas existam a partir de uma perspectiva dele. Mas,
ao acordar, nos damos conta de que era apenas um sonho e a pessoa que achávamos
que éramos, assim como as outras pessoas e tudo o mais, nem existem (até onde
se sabe...). Não só as pessoas, mas todo o cenário, o drama e as sensações que
ali acontecem são constituídos de projeções mentais, e tudo é feito desse mesmo
material (virtual), que parecem ter um propósito bem claro de nos iludir como
se aquilo fosse real.
Considerando-se isso, não seria
estranho se esse nosso personagem, durante o sonho, olhasse para qualquer
objeto de seu cenário onírico (um vaso sobre a mesa, por exemplo) e percebesse,
em um despertar da consciência de sua realidade, que aquele vaso e ele mesmo
são uma só coisa. Pois, de fato, tudo em nosso sonho são as mesmas coisas e,
portanto, não há nenhuma diferença entre o vaso sobre a mesa e aquele que acha
que sou eu.
E, ao acordar, numa fração de
segundos, nosso cérebro, como um computador ao ser religado, “inicializa o
sistema operacional”, por assim dizer. Da inconsciência do mundo dos sonhos
para a nossa realidade, ao abrir dos olhos, nos damos conta instantaneamente de
nossa complexa realidade. A forma como enxergamos o mundo e como nos
enquadramos nele.
Dessa forma, Bill Gates, o Papa
Francisco, o papeleiro com seu carrinho e seu cachorro, o mendigo que dormia
debaixo da marquise e eu, todos nós e outras bilhões de pessoas no mundo todo
retomamos as nossas vidas da mesma forma todos os dias. Não há confusão nem
“linhas cruzadas”. O sistema é automático e seguro. O rico acorda e lembra que
é rico; o pobre, que é pobre; o budista, o crente, o ateu, o bom, o mau, o
doente... todos, em frações de segundos, convencidos do que pensam que são.
Então, todos os dias, você, eu e
todas as pessoas do mundo todo, assim como nosso “Eu” no mundo dos sonhos,
acordamos pensando ser uma pessoa que achamos que somos e passamos o resto do
dia totalmente envolvidos e comprometidos com essa ideia, sem perceber que essa
imagem que temos é só o resultado do que fomos inventando e criando durante
nossas vidas com as coisas que foram se apresentando aleatoriamente. Poderíamos
ter sido qualquer outra pessoa em nossas vidas, se as circunstâncias às quais
estávamos submetidos tivessem sido outras. Como se fossemos um avatar, que nos
representa em um jogo de computador, que criamos com as características que
estão disponíveis nas opções e nas regras do jogo..
Texto extraído do livro: "Eu sou você"
Autor: Flavio Goulart Rodrigues
Editora Viseu
