O pinheirinho torto (crônica de natal)

 



Quando chegou em casa, seu filho de oito anos estava lhe esperando no portão, que ficou contente ao ver o pai. Pegou em seu braço, e enquanto caminhavam perguntou se iriam enfeitar a casa para o Natal.

Ele não queria desapontar o filho, dizendo-lhe que não havia dinheiro sobrando para isto... tentou desconversar, mas ele insistia em uma resposta melhor do que:  "Depois a gente vê isto filho".

Diante da insistência do menino, perguntou:

– E como você quer enfeitar a casa, filho?

– Vamos montar um pinheirinho na sala e enfeitar a casa com luzinhas.

O pai, todavia, não demonstrava o mesmo interesse, pois estava desempregado e não achava prudente gastar o pouco dinheiro que tinham na compra de pinheirinho, enfeites e luzes de natal. Para não acabar definitivamente com as expectativas do garoto, achou melhor apelar mesmo para o recurso  do "Vamos ver isto depois, filho".  

Mais tarde teve de sair outra vez, e quando retornou encontrou em cima da mesa da sala um pequeno ramo de pinheiro de Araucária espinhoso muito comum naquela região. Era apenas um ramo de um galho, seco e torto. 

– O que é isto, filho?

Ele respondeu entusiasmado que era para fazerem uma árvore de Natal.

Pegou aquele galho em silêncio e ficou tentando imaginar uma maneira de transformar aquilo em um pinheirinho de Natal. Ficou com pena do menino, por sua inocência de criança, que consegue resolver tudo de forma tão simples. Teve receio de magoá-lo. Não queria dizer para ele que aquilo não dava para fazer um pinheirinho de Natal.

O menino parado em pé ao seu lado aguardava que lhe informasse o que fazer. Olhou em seus olhos em silêncio, e olhou de novo para o galho.

Ocorreu-lhe um pensamento, de que sua vida estava como aquele galho: seco, torto e com falta de expectativas.

O menino quebrou o silêncio e perguntou:

– Como é, vamos fazer o pinheirinho?

Resignado, respirou fundo, esboçou um sorriso, meneou a cabeça e disse:

– Está bem vamos ver o que dá para fazer.

Chamou sua filha e lhe disse que precisavam da ajuda dela para enfeitar a árvore de natal.

Ela olhou aquele galho seco nas mãos do pai e disse:

– Vocês não estão pensando em fazer um pinheirinho disto, estão?

– Minha filha, nós não temos uma árvore de natal, temos? Mas nós temos um galho. Pois então nós vamos transformar este galho velho e feio numa árvore de Natal. 

– Mas nós vamos enfeitar ele com o que? Perguntou ela, talvez tentando lembrar o pai, que não havia dinheiro disponível para isto.

– Nós vamos fazer isto com o que temos em casa, sem gastar nada.

Ela ficou olhando o pai muito séria, talvez, assim como ele, tentando descobrir um jeito de transformar aquele galho em um pinheirinho de natal

Ele lhe diz então:

Minha filha, este galho é como nossas vidas. Por pior que esteja, precisamos continuar acreditando que podemos mudar. Se a gente acredita nisso, então vamos fazer com este galho velho o mesmo que podemos fazer de nossas vidas. Vamos transformá-lo!

Ela sorriu e disse: - Tá certo pai, entendi! Acho que sei o que fazer.

Enterraram o galho em uma lata forrada com papel de presente e o enfeitaram com brinquedos, algumas bolinhas de outros natais, puseram algodão nos galhos a guisa de neve e uma série de coisas que foram achando nas gavetas, nos armários e no quarto do filho.

Quando sua esposa retornou para casa mais tarde com sua outra filha, ficaram encantadas com o pinheirinho, indicando pela aprovação delas, que haviam feito um bom trabalho. 

À noite fizeram uma pequena ceia junto ao pinheirinho, que agora parecia inclinado saudando-os.


Autor: Flavio Goulart Rodrigues

Imagem: aquarela do autor


Postagens mais visitadas deste blog

Ensaio sobre a ilusão do sofrimento.

Ensaio sobre palavras e reações

Divergência e convergência