O sonho
Acordou e sentou-se na cama por uns momentos. Havia sonhado com ela de novo. Olhou o relógio que mostrava 5:30. Ficou sentado ainda um certo tempo tentando entender o significado daquele sonho. Mais tarde ligou para ela. Queria contar-lhe o sonho.
Ela pareceu ficar contente ao lhe atender. Ele começou dizendo que sentia sua falta, mas antes que lhe pudesse falar do sonho ela o interrompeu para fazer algo. Quando retornou ao telefone ela pergunta:
Você já pensou que pode estar sentindo minha falta porque já esqueceu os maus momentos?
Era uma pergunta retórica, e ele sabia porque ela estava dizendo aquilo. Assim mesmo lhe pergunta:
– Por que você diz isto?
– Quando deixamos de conviver com uma pessoa; com o tempo tendemos a esquecer das coisas ruins e nos lembramos só das boas. Isto pode ser uma armadilha, pois corremos o risco de mudar o rumo de nossas decisões para voltar a conviver com alguém que já tínhamos desistido e sabemos onde aquilo vai dar.
Já haviam falado sobre este assunto, mas antes que ele pudesse dizer algo ela lhe interpelou com outra pergunta:
– Você já viu alguém em um velório falando mal do falecido? Depois que morre todo mundo é bom, não é mesmo?
– Bem, presumo que se alguém está em um velório é porque gostava do falecido, por isso se lembra de coisas boas.
– É... de certa forma você tem razão – diz ela.
– Você mesmo disse que depois que nos afastamos, ou perdemos alguém, temos uma tendencia a lembrar de coisas boas sobre aquela pessoa. Sabe por que?
– Humm... Por quê?
– Acho que é porque não conseguimos lembrar bem e mal de alguém simultaneamente. Com o tempo nossa mente faz um balanço, e se as coisas boas forem maiores e mais intensas; se tivemos muito mais alegria do que tristezas, a balança pende para o lado das boas lembranças e esquecemos o resto.
– E a recíproca também é verdadeira – Diz ela.
– Você está se referindo a nós, não é mesmo?
Ela titubeou, e antes que respondesse, ele lhe diz:
– Acho que você está equivocada. Nós vivemos uma vida juntos e compartilhamos os melhores momentos de nossas vidas. Não deveria haver más lembranças... tudo foi muito bom!
– Você está certo quando diz que vivemos quase toda a nossa vida, juntos. Infelizmente para mim não ficaram só boas recordações, muito pelo contrário.
Ficaram algum tempo em silencio, então ele diz:
– Acho que você está perdida dentro de você
– Por que você diz isso?
– Curioso o fato de estarmos falando sobre este assunto... porque esta noite eu sonhei com você... de novo! E liguei para lhe falar sobre isso.
- E o que você sonhou?
Sonhei que liguei para você e lhe disse que estava sentindo sua falta e que precisava vê-la. Você me pediu então para que eu fosse te encontrar. Perguntei onde você estava e você, curiosamente, me disse que não sabia.
– Como você não sabe onde está? Como você chegou aí? Eu lhe perguntei.
– Não sei! Você me disse confusa – Não sei onde estou, nem como cheguei aqui.
Na sequência do sonho, eu desliguei o telefone, e sai para te buscar, mas não sabia como te encontrar, e quanto mais eu te procurava mais eu me desorientava e mais eu sentia que me afastava de você.
Acho que este sonho é uma resposta tanto para você quanto para mim. Talvez estejamos perdidos um do outro mesmo. A vida é muitas vezes como uma torrente que nos envolve e nos arrasta nos dando a ilusão de que tínhamos escolhas, mas no final estaremos muito distantes de onde queríamos estar, e com uma falsa impressão de que as decisões foram nossas.
– Não entendi muito bem aonde você quer chegar, mas eu tenho que desligar agora... te ligo a noite.
– Está bem, ele disse antes de desligar... mas sabia que ela não ligaria.
Autor – Flavio Goulart Rodrigues
