Penso, logo Deus existe

 


Penso, logo Deus existe

Um ensaio literário que expõe uma reflexão panteista que mostra que a natureza não poderia criar algo (a conciencia) que fosse estranho a sua ocorria natureza

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A partir de René Descartes (1596 - 1650), a ciência passou a contar com um método científico que elimina o comprometimento do pesquisador com os resultados das provas daquilo que está sendo estudado, tornando estes resultados independentes do que ele mesmo acredita. Todavia, se em uma pesquisa científica sobre a possibilidade da existência de algo o resultado for negativo, ainda assim, não seria a prova de que essa coisa não existe, pois: “ausência de evidência não é evidência de ausência” (Carl Sagan). Isso quer dizer que o fato de não termos encontrado nenhuma evidência racional ou experimental da existência de Deus (ou de qualquer outra coisa) não prova categoricamente sua inexistência, uma vez que sempre que uma experiência, levada a cabo para provar a existência de algo, der resultado negativo, podemos concluir, em última análise, que este resultado poderia estar nos mostrando apenas que os métodos (ou os conhecimentos) disponíveis e aplicados naquele momento não comprovam sua existência. Mas não podemos descartar a possibilidade de encontrarmos outros resultados usando outros métodos de análise, quem sabe ainda não disponíveis.

Até meados do século dezenove, não havia como provar a existência das ondas eletromagnéticas e das ondas hertzianas, que possibilitam as transmissões de rádio, mas isso não significa que elas não existissem. Apenas não havia ainda nenhum instrumento que pudessem medi-las.

É claro que poderíamos alegar que temos argumentos sobre a existência de Deus pelas observações da vida no planeta e tudo o que organiza e sustenta o universo, mas tais observações só nos provam categoricamente a existência de um universo autônomo, e não o de uma entidade com racionalidade lógica semelhante à nossa.

Existe ainda a argumentação de que se existe um universo que pulula em vida, necessariamente deveria haver um criador que o gerou, pois quem teria criado tudo isto senão alguém que já existisse antes? Mas também podemos pensar que, se acreditamos na existência de um criador, apenas para justificar a existência de algo que obrigatoriamente teria de ser criado por alguém que já existisse antes, chegamos a uma outra pergunta: se Deus criou o Universo, quem criou Deus? A resposta unânime entre as pessoas que acreditam em Deus é: Ninguém criou Deus, pois Ele sempre existiu! Esta afirmação, todavia, nos leva inevitavelmente a outro questionamento: se Deus nunca foi criado porque sempre existiu, por que o universo não poderia também ter sempre existido, sem que ninguém o criasse?

Bem, esta pergunta nos leva as seguintes considerações: quando pensamos em universo, estamos supondo algo autônomo como uma máquina totalmente automatizada que funciona a partir de rigorosas regras, leis e princípios, mas sem racionalidade. E quando pensamos em Deus, supomos a existência de uma mente inteligente que pensa como nós.

Existe hoje um grande número de cientistas defendendo a necessidade de uma inteligência por trás de tudo o que existe no universo. O “Designer Inteligente”, como é chamado esta corrente de pensadores, argumentam que a teoria de Charles Darwin sobre a evolução das espécies através da seleção natural não seria suficiente para explicar o que eles chamam de “complexidade irredutível”.

A teoria da evolução das espécies se baseia no fato de que toda a vida na Terra evoluiu, por acaso, como resultado dos agrupamentos de aminoácidos que, por sua vez, formaram alguns agrupamentos de proteínas que, ao longo de bilhões de anos, evoluíram para criaturas unicelulares simples, e, depois, para criaturas complexas que floresceram e deram origem a toda a vida na Terra. Segundo a teoria da evolução de Darwin, toda criatura mutante que desenvolve alguma característica que lhe assegure alguma vantagem de sobrevivência lhe dará também mais chances de se reproduzir, e assim transmitir essas vantagens para seus descendentes e, ao longo de milhares de anos, essas vantagens iriam se acumulando e se somando até a complexidade dos organismos vivos que conhecemos hoje.

A hipótese da “Complexidade Irredutível”, por outro lado, postula que alguns órgãos e sistemas são complexos demais e que só funcionariam quando todas as partes que os compõem estivessem devidamente agrupadas em determinada ordem, o que inviabilizaria a possibilidade de terem sido o resultado de pequenas vantagens que teriam se agrupado ao longo de milhões de anos até se consolidarem em um organismo complexo. O Flagelo Bacteriano, por exemplo, dispõe de um intrigante sistema de propulsão com dezenas de “peças” independentes. No conjunto, essas peças funcionam como um motor de locomoção, mas que só tem esta função prática se todas as suas partes estiverem ordenadas perfeitamente em conjunto. Logo, as pequenas alterações que poderiam surgir (durante o processo de evolução) não trariam, a princípio, nenhum benefício isolado que pudesse dar alguma vantagem evolutiva, até que o órgão se transformasse e assumisse alguma utilidade prática. A hipótese supõe então que por trás da aparente evolução espontânea (da teoria da de Darwin) haveria uma inteligência que já teria definido previamente a forma e a utilidade baseado na necessidade da criatura, e a evolução só teria executado a receita.

Então, a conclusão a que poderíamos chegar à pergunta “Se Deus nunca foi criado, por que o universo não poderia também ter sempre existido?” nos levaria a considerar a possibilidade da existência de uma mente inteligente por trás de toda a criação. Se vamos chamá-la de Deus ou de Consciência do Universo, é só uma questão de semântica.

Os budistas são erroneamente classificados como ateus pelo fato de suas doutrinas não considerarem nenhuma menção sobre Deus, nem qualquer referência que vincule o homem, em sua busca espiritual, a alguma entidade divina criadora. Por que os budistas não consideram a existência de Deus em sua liturgia? Por que são ateus? Não necessariamente, pois ateu é aquele que não acredita na existência de um Deus criador e provedor das benesses humanas. Mas os budistas apenas consideram que a existência de tal entidade está tão fora de nossa realidade e compreensão que a mente humana jamais poderia compreendê-la. Logo, essa crença torna-se irrelevante e desnecessária, uma vez que a doutrina tem como propósito unicamente a busca da felicidade do homem integrado e em harmonia com sua própria natureza humana, que seria a única realidade possível de ser compreendida.

Há uma pergunta que nos leva jocosamente a refletir sobre a dificuldade de definirmos racionalmente a existência de um Deus todo-poderoso: “Deus poderia fazer algo tão grande e tão pesado que nem mesmo Ele pudesse carregar?” Sobre essa questão, Leibniz (filósofo alemão, 1646-1716) defendia a ideia de que nem sempre há uma grandiosidade máxima ou absoluta, tal como não existe um número par que seja o maior de todos.

Segundo a Cabala (estudo místico do judaísmo), nossa realidade se baseia na existência de um criador que gerou uma criatura (Adam Rishon - o Adão do Gênesis) para dar a ela todo o prazer e deleite. Diz a Cabala ainda que “doar” é o único propósito do Criador para com sua criação. Quando refletimos sobre isso, não encontramos outra justificativa para a existência de um Deus sem um universo criado. Onde Ele estaria antes da criação do mundo e o que Ele fazia? Como esse Deus existiria sozinho, sem nenhuma criação?

Há uma frase atribuída a Albert Einstein que diz: “Acredito que Deus fez o mundo, mas acredito também que Ele não teve escolha.” Logo, as limitações de nosso entendimento não conseguem conceber a ideia de um Deus sem um universo ou sem algo para quem doar.

Quando René Descartes propôs que o fato de eu pensar já prova a minha existência, ele procurava, através desta reflexão, obter uma resposta à pergunta: “Eu realmente existo ou posso ter apenas a ilusão de existir?” Através da afirmação “Penso, logo existo”, conclui-se que, se estou pensando sobre isto, é porque algo está pensando; logo, esse algo só pode existir. Pois, se não, quem estaria questionando?

Mas como posso ter certeza de que uma entidade teísta realmente exista? E, ainda, que tenha poderes para criar um ser pensante como nós? Como poderíamos, através de uma reflexão simples como esta de Descartes, afirmar que a existência de um ser supremo de natureza divina que pense como nós não seja apenas uma grande ilusão, e que os seres humanos seriam mesmo apenas fruto de uma evolução espontânea, como afirmam a maioria dos cientistas céticos e todos os ateus?

Podemos começar esta reflexão afirmando inicialmente que nós fomos feitos pela natureza, pois isso é parte do que nós entendemos como a nossa realidade. Não vamos questionar aqui a participação de uma divindade por trás da natureza, até porque é isso que se quer mostrar.

Podemos, portanto, facilmente aceitar que a natureza é nossa gestora e mãe criadora, independentemente de haver ou não um ser supremo que a anima (assim como um bebê refletindo sobre sua relação com o útero e o cordão umbilical sem considerar ainda que exista uma mulher gestora que carrega e nutre tudo isso). 

Então, nosso ponto de partida será este: o mundo material, ou seja, o plano físico e tudo aquilo que percebemos com nossos cinco sentidos. Esta é a única realidade em que podemos confiar categoricamente e na qual todos concordam unanimemente, sejamos crentes ou ateus. Pois não há discussões sobre sua existência, mesmo que, para os crentes, esta natureza pertença ou tenha sido criada por Deus. 

A ciência nos mostrou que evoluímos dela a partir de criaturas simples, até nos tornarmos criaturas complexas e inteligentes. Nos alimentamos dela, respiramos dela, morremos e nos reintegramos a ela, independentemente de nossa vontade. Isto é fácil de aceitar e todos concordam com isto também. 

Quando falamos aqui em “natureza”, queremos dizer tudo o que existe em todo o universo: do microcosmo ao macrocosmo; do que é energia ao que é matéria; os princípios e as leis; todas as substâncias e todos os elementos. 

Agora, se refletirmos sobre a natureza, podemos chegar a uma conclusão bastante óbvia: "a natureza não pode fazer algo que não seja de sua própria natureza".

Isto parece deveras redundante, mas é importante considerar aqui que tudo o que ela produz, ela o faz com elementos contidos e gerados por ela. 

Então, podemos afirmar, com toda a certeza, que a natureza (ou o universo) não poderia criar algo estranho a ela. 

Dito isto, podemos concluir então, a princípio, que se eu penso é porque pensar é da natureza dela. Pois é bem claro, que, se nosso cérebro evoluiu de criaturas unicelulares até atingir a condição de produzir pensamentos racionais, é porque esta condição faz parte de sua natureza. 

Mesmo que sejamos totalmente céticos e acreditemos que sejamos fruto do acaso ou de uma evolução espontânea, ainda assim podemos afirmar que pensamos porque temos um cérebro e se temos um cérebro com capacidade para pensar é porque a força evolutiva da natureza que o gerou existia antes de ter construído uma criatura com cérebro pensante, pois ela obrigatoriamente teria de ter todos os atributos e conhecimentos funcionais para gerar algo que pense, mesmo que “por acaso”. 

Platão afirmava que todas as coisas que existem no mundo são uma representação física do “Mundo das Ideias”. Tudo o que existe neste mundo, existiria antes no mundo das ideias. 

Independentemente de acreditarmos ou não na possibilidade da existência de um tal “Mundo das Ideias”, nos parece óbvio acreditar que o princípio funcional de qualquer coisa exista independentemente de sua existência física ou do nosso conhecimento dessa coisa. 

Tomemos o arco e flecha como exemplo. Se ninguém o tivesse inventado, assim mesmo o princípio do arco existiria, e a qualquer momento alguém poderia pegar um galho e uma corda, colocar um pedaço de pau, puxar a corda e arremessá-lo. Se não tivessem inventado o computador e a internet, a qualquer momento alguém poderia inventá-los. Podemos, a partir daí, pegar qualquer outra coisa, do mais simples, como um esquadro e um prumo, ao mais sofisticado, como um robô ou uma aeronave, e sempre concluiremos a mesma coisa. 

Considerando que isto seja, no mínimo, plausível, concluímos que se a natureza produziu um ser que pensa é porque pensar é da sua natureza. Ou seja: pensar não poderia ser algo estranho a ela. De tal forma que, se por algum descuido os seres humanos, assim como os dinossauros, tivessem sidos extintos por algum cataclisma, o princípio do pensamento e da reflexão existiriam de forma latente, bem como todas as ideias que o pensamento criaria em nossa civilização. 

Então, se a natureza que me criou existe antes de mim (pois não poderia ser diferente), então o ato de pensar e refletir existe antes do cérebro ter evoluído, assim como a ideia de as coisas sempre terem existido antes mesmo da sua criação.

(As coisas não são inventadas, são descobertas!)

Se formos um pouco mais generosos com nossas elucubrações, podemos até supor então que “Ele” (Aquele ou aquilo que nos criou) pode ter pensamentos como o meu e, de alguma forma, reconhecer meus pensamentos e minhas ideias como algo familiar, uma vez que é de Sua natureza. 

Isto pode ser considerado um tipo de comunicação. Se eu me comunico com algo, é porque este algo existe e, de alguma forma, pode se comunicar comigo, ou me ouvir e me reconhecer. Ou seja, reconhece minha existência e podemos nos comunicar. 

Conclusão: se pensar é de minha natureza, também o é daquilo que me criou.

A frase a La Descarte seria então: Penso, logo Deus existe


Autor - Flávio Goulart Rodrigues

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Análise Literário-Filosófica do Texto “Penso, logo Deus existe”


Fonte: Análise crítica independente


O ensaio “Penso, logo Deus existe”, de Flávio Goulart Rodrigues, realiza uma inversão filosófica notável da máxima cartesiana, conduzindo o leitor da dúvida racional à descoberta de uma consciência universal subjacente à própria natureza.

Enquanto René Descartes utilizou o pensamento como prova da existência individual do sujeito — “Penso, logo existo” —, o texto de Goulart amplia essa proposição, sugerindo que o ato de pensar é, em si, a evidência de uma inteligência maior, imanente ao universo e expressa através da mente humana.

A argumentação se desenvolve de modo dialético e ascendente.

Parte da razão científica e do método cartesiano, passa pela crítica ao reducionismo do empirismo e da evolução mecanicista, e culmina em uma síntese integradora entre ciência, filosofia e espiritualidade.

Essa estrutura confere ao texto uma dimensão cosmológica e ontológica, em que o raciocínio humano se torna o reflexo da própria ordem natural.

Ao examinar o conceito de “natureza pensante”, o autor propõe que nada pode emergir da natureza que não pertença à sua própria essência. Assim, se o homem pensa, é porque o pensamento já estava potencialmente contido na natureza antes de criar um cérebro e se manifestar. Essa ideia conduz a uma conclusão profundamente simbólica: a consciência humana seria o modo pelo qual o proprio universo toma consciência de si mesmo.

O ensaio se destaca por seu caráter sincrético, dialogando com diversas tradições de pensamento — de Platão e Leibniz à Cabala judaica e ao Budismo — sem perder a coerência argumentativa. Cada referência funciona como um degrau na construção da tese central: a de que o pensamento humano é a continuidade de uma mente universal, que alguns chamam de Deus, outros de Consciência ou de Inteligência Cósmica.

A linguagem é ao mesmo tempo reflexiva e didática, equilibrando rigor lógico com sensibilidade poética. O texto mantém uma cadência argumentativa fluida, em que exemplos concretos — como o arco e flecha ou o flagelo bacteriano — se integram harmoniosamente à especulação metafísica.

Essa combinação entre clareza racional e intuição filosófica torna o ensaio acessível, sem abrir mão da profundidade conceitual.

Na conclusão, a inversão cartesiana proposta — “Penso, logo Deus existe” — não é uma negação da razão, mas sua expansão para o domínio do mistério.

A fé, aqui, não se opõe ao pensamento: nasce dele.

A existência de Deus deixa de ser uma crença imposta e passa a ser uma dedução lógica, enraizada na constatação de que, se a natureza é capaz de gerar pensamento, o próprio ato de pensar já contém em si a presença do divino.

Assim, o ensaio transforma a célebre dúvida cartesiana em uma afirmação de unidade: o “eu” que pensa é o mesmo princípio que sustenta o cosmos.

Pensar é participar do próprio pensamento da criação.

E, nesse sentido, a frase que encerra o texto é mais que uma proposição filosófica — é uma revelação poética sobre o vínculo entre a mente humana e a Consciência Universal.


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