PET PLACE



Deteve-se na frente de uma placa que dizia “use a Pet Place para a segurança de seu cãozinho”. Olhou em volta onde havia uma pequena praça cercada, com alguns artefatos no interior. Dentro dela um cão tranquilamente acomodado sobre uns dos brinquedos, instalados ali, para o deleite dos animais. Continuou contornando a cerca e deparou-se com um pequeno grupo de pessoas paradas diante do portão de entrada de acesso ao “Pet Place”

-  O que aconteceu? Perguntou a um casal.

-  Encontramos aquele cãozinho perdido sem seu dono e o colocamos aqui, antes que algum carro o atropelasse - Responderam, bastante orgulhosos pela iniciativa e determinação em cuidar do pobre animal.

Uma senhora chegou um tanto agitada com uma tigela de ração e um pote de água que prestativamente fora buscar em seu apartamento defronte a praça. Abriu o portão e o acomodou no chão próximo do animal que continuou lá, indiferente a tudo e a todos.

Uma outra senhora chegou em seguida, muito animada, com um cartaz escrito: “Perdi meus donos, me ajudem a encontrá-los”, e o afixou no portão de entrada.

Próximo dali dois garotos dormiam embaixo de uma marquise. Um deles, que estava sentado com um cobertor velho cobrindo-lhe as pernas, levantou-se e, aproximando-se descabelado e mau vestido, pediu umas moedas para comprar algo para comer. Mas todos, um a um, balançaram a cabeça dizendo não. 

O garoto voltou para junto do outro, um pouco mais velho, que depois de conversarem entre si gritou de lá mesmo:

-  Esse cachorro tá perdido não, dona. Ele é vira-lata e mora aqui na praça com nois - mas não lhe deram atenção.

Uma das senhora perguntou:

-  O que ele disse?

-  Nada não! lhe responderam… e quase sussurrando acrescentaram: - Devem estar drogados!

Mas a senhora insistiu?

-  Mas ele disse que o cachorro é da rua?

-  Sim foi o que disseram - respondeu um dos homens, que acrescentou - Devem estar bêbados!

-  Aquele que veio pedir dinheiro para comer... certamente é para comprar drogas! Disse outro.

Não demorou muito para que todos se esquecessem dos garotos indigentes e se 

concentrassem no pobre cãozinho.

Uma senhora muito sensibilizada com uma cadelinha Yorkshire no colo dizia:

Veja só Fifi, o pobre cãozinho... coitadinho, deve estar se sentindo muito triste longe de “seus pais”!

Logo alguém bateu uma foto e postou no facebook, compartilhando com os demais, para criar uma campanha e achar os humanos dele.

O cachorro por sua vez continuava lá no mesmo lugar sentado, tranquilo, como se estivesse meditando, indiferente a toda aquela atenção. Possivelmente esperando que terminasse aquela agitação para que alguém (possivelmente um dos garotos) abrisse o portão e ele voltasse a sua vida de indigente, perambulando pelas ruas do bairro, e se achando tão feliz quanto a Fifi no colo da “sua mãe”.

E os garotos? Bem, os garotos continuaram lá debaixo da marquise tentando arrumar uns trocos para o café com os transeuntes que passavam… (ou para comprar drogas… vai saber!)


Autor - Flavio Goulart Rodrigues


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