Comportamento de grupo
COMPORTAMENTO DE GRUPO
Em uma palestra o palestrante nos falava sobre a impermanência, um dos aspectos da doutrina budista que nos ensina que tudo está em constante mudanças e nada existe para sempre. Num dado momento eu pedi a palavra e comentei sobre o filósofo grego Heráclito, que dizia algo semelhante quando afirmava: “um homem nunca entra no mesmo rio duas vezes, pois na segunda vez, nem ele nem o rio seriam os mesmos”. Com isso eu tentava dizer aos presentes que aquele axioma não era um conceito originalmente e exclusivamente budista, mas um conceito universal, que também havia sido considerado por um grego sem que houvesse (até onde se sabe) alguma interação entre ele e Sidarta Gautama (O Buda) e que também era um conceito moral da maioria das religiões.
No entanto o que notei ao final do meu comentário, foi a completa falta de interesse dos presentes, que, assim que terminei de falar, voltaram-se imediatamente para o palestrante, que continuou com sua oratória como se eu nada tivesse dito, parecendo mesmo que aquilo não tivesse a menor relevância.
Intrigado e refletindo sobre isso lembrei que, em várias denominações religiosas que participei, eu já percebera esse tipo de comportamento, de as pessoas não se interessarem por nada que não esteja dentro daquilo que usualmente se fala no grupo.
Pesquisando sobre o assunto, encontrei um estudo do psicólogo estadunidense Irving Janis, que escreveu um extenso trabalho sobre um determinado comportamento que envolve as pessoas que fazem parte de um grupo, seja uma empresa, uma ordem religiosa ou uma agremiação. Esses estudos ficaram sendo conhecidos como Groupthink, ou “Pensamento de Grupo” em tradução livre.
Os resultados desse trabalho elencaram alguns padrões de comportamentos similares entre as pessoas que se integram em grupos com as mesmas ideologias. Esses padrões produzem uma determinada formatação na maneira como os indivíduos se comportam na forma de pensar, na forma de agir, e como se comunicam entre si.
O que se pode notar é que, quando nos integramos a um grupo de pessoas que acreditam nas mesmas coisas, percebemos que existe um certo jargão que faz parte da comunicação entre seus membros. Se alguém não se comunica usando essas palavras, ou usa alguma outra forma de pensamento, ou pontos de vista que destoam daquilo que o grupo acredita, essa pessoa será ignorada e seus pontos de vista desconsiderados pelos demais. Dependendo do caso, poderá ainda sofrer sanções, preconceitos e até perseguições (como foi o caso, levado ao extremo, pela Inquisição).
Portanto, quando participamos de um grupo religioso, usamos algumas dezenas de palavras que fazem parte dos cânones e da liturgia daquela doutrina, e que têm sua manutenção preservadas por seus líderes religiosos, e pelas pessoas que integram esses grupos. Na comunicação entre seus membros, espera- se que todos se expressem de alguma forma fazendo uso dessas palavras. Logo, falar sobre doutrina budista entre cristãos evangélicos, ou de filosofia grega em um grupo budista, passa a ser algo que não desperta nenhum interesse entre às pessoas e pode até ser interpretado como indesejado e desconfortável.
Conversando sobre isso com minha filha, que é estudante de neurociência, ela me disse: “As pessoas só ouvem alguém, quando essa pessoa está autorizada a falar”.
Por esse motivo, é normal alguém anunciar o palestrante antes de sua oratória, e apresentar suas credenciais sobre o assunto. Na maioria das vezes, isso já está explícito no convite que recebemos e, dependendo de quem seja essa autoridade, as pessoas tendem a desligar certos mecanismos no cérebro responsável pela análise crítica e, a partir dali, aceitar tudo o que ela disser sem questionar mais nada.
Em uma experiência numa universidade americana (revista Superinteressante), foram acomodados dois grupos de pessoas, republicanos e democratas, cada um assistindo aos discursos do candidato à presidência dos Estados Unidos do partido adversário, enquanto seus cérebros eram monitorados por eletrodos ligados a uma máquina de ressonância magnética.
Pôde-se observar então que, durante a experiência, a região cerebral correspondentes a análises críticas ficou totalmente ativada, mostrando que as pessoas estavam muito concentradas e dispostas a perceber as falhas de argumentação do discurso de seu opositor político.
Inverteram-se então os grupos, e cada qual passou a assistir ao discurso do candidato do seu próprio partido. O resultado óbvio foi o de que, a partir daí, a região responsável pelas análises críticas, que antes estavam completamente ativas, tornou-se agora sem atividades, mostrando nossa tendência a escolher o que queremos acreditar.
Mas por que temos essa forte tendência de nos incorporar e pertencer a um grupo, e nos comportar de forma homogênea, evitando ideias controversas e isolando pessoas com postura e comportamento diferente do manifestado pelos outros membros? Talvez a resposta esteja na história da humanidade, e como nossa espécie, Homo Sapiens, se desenvolveu e evoluiu através de milhões de anos.
Os animais sempre atuam dentro de um mesmo padrão de comportamento como forma de salvaguardar a integridade de todo o bando.
Em um grupo de lobos, ou de macacos, por exemplo, todos os indivíduos devem agir conforme uma determinada hierarquia e raramente algum indivíduo surpreende aos demais com algum comportamento adverso.
Mesmo as lutas entre rivais do mesmo clã visando derrubar o macho alfa e assumir seu lugar de liderança também é um comportamento previsto que faz parte da própria manutenção genética do grupo.
A alguns milhões de anos atrás, os seres humanos se resumiam a pequenos grupos isolados de algumas dezenas de caçadores/coletores. Nessas condições éramos vistos e caçados como presas fáceis. Nossa única chance de sobreviver, assim como outros animais, era se manter em grupo. Sozinhos éramos frágeis demais. Em grupo podíamos passar de presa fácil, para predador.
Por isso, manter-se em grupo era a diferença entre a vida e a morte, e o sucesso de cada membro dependia dos vínculos que ele mantinha com o grupo.
À medida que os seres humanos foram se espalhando pela terra e aumentando o número de indivíduos, também foram se aprimorando os modelos sociais, de forma que desenvolvemos um apego e uma necessidade muito grande de ser valorizado pelos nossos pares, pois fugir do comportamento esperado poderia representar ser rejeitado e banido do grupo.
Dentro do grupo… segurança! Lá fora, invernos rigorosos e uma natureza hostil, com feras à espreita e a morte certa.
Esse padrão social desenvolveu nos seres humanos um mecanismo de defesa gerando em nosso cérebro, em milhões de anos de evolução, a necessidade vital de se adequar e ser aceito pelo grupo.
Duzentos e cinquenta mil anos é pouco tempo, geologicamente falando, por isso para nosso cérebro ainda somos caçadores coletores sobrevivendo nômades em um ambiente selvagem e perigoso.
Mesmo vivendo hoje em uma sociedade moderna com conforto e segurança, com milhões de pessoas vivendo sozinhas, sem que isso lhes represente algum perigo, ainda continuamos tendo os mesmos reflexos condicionados e as mesmas respostas para perigos que não são mais reais (agora são virtuais).
Por essa razão nos sentimos tão mal quando somos ignorados ou rejeitados, seja na empresa em que trabalhamos; na escola; em um clube social; entre amigos, ou até mesmo em nossos grupos familiares.
A mensagem que nosso cérebro nos envia é: Eles não me querem e eu estou em perigo!
Isso é muito sutil e subconsciente, mas pode representar uma grande ameaça para a maioria das pessoas que tendem a se adaptar diligentemente para não correr riscos de sofrer com as consequências da rejeição.
Para fugir disso, nos obrigamos a ignorar nossos pontos de vista se for preciso, e nos adaptarmos às coisas do jeito que são, sem questioná-las.
Temos sempre a tendência de tentar falar a linguagem de todos para não atrair a rejeição dos demais, e quando fugimos desses modelos, as pessoas tendem a nos ver como algo distorcido e estranho.
Extraído do livro: “Eu sou você”
Autor: Flavio Goulart Rodrigues
Links do autor:
Compartilhe em suas redes sociais
Seus comentários serão bem-vindos
Muito Obrigado