Estoicismo e a Ilusão do ego


Estoicismo e a Ilusão do ego


A princípio, nos parece ser inevitável que um acontecimento ruim gere em nós um sentimento que nos cause sofrimento. Mas consideremos que uma coisa é o que acontece externamente e que, na maioria das vezes, é ocasionada por fatores que estão fora de nosso controle; outra coisa é o sentimento que aprendemos a considerar como sendo o resultado desses acontecimentos, mas que, no entanto, nada tem a ver com o fato ocorrido.

O estoicismo (filosofo grego Zenão de Sítio 333 - 263 a.C.), diz basicamente o seguinte: “Nós não reagimos aos acontecimentos pura e simplesmente; nós reagimos às nossas impressões e julgamentos a respeito dos acontecimentos”. 

Ao contrário do que pensamos, os conflitos não são o resultado de apenas duas situações: “um acontecimento e uma reação emocional”; mas envolvem três fases: 

  1. um acontecimento (normalmente inesperado e fora de nosso controle). 

  2. um julgamento; que dependem de nossa relação com o fato ocorrido (que só nos emprestamos se nos afeta de algum modo).

  3. uma reação.

Esse julgamento, e a consequente reação emocional, dependem sempre de nossos referenciais, ou o que aqueles fatos e acontecimentos significam para nós. Nosso julgamento a respeito de algo depende da impressão que temos diante do ocorrido, e isso é apenas um ponto de vista que nós mesmos construímos; portanto, o que pensamos a respeito de algo tem muito mais a ver conosco do que com o próprio evento.

Se, em um primeiro momento, não podemos nos livrar dos sentimentos negativos resultantes de alguma adversidade que nos tenha causado algum dano ou prejuízo e nos causa sofrimento, ao menos deveríamos nos esforçar para não os fomentar. Assim como uma fogueira que não nos seja possível apagar suas chamas imediatamente, mas podemos deixar de alimentá-la com o combustível que a faz arder, da mesma forma a simples compreensão de que os sentimentos negativos não são reais e tampouco necessários, mas uma ilusão criada por nós mesmos, já diminui sua intensidade.

A compreensão de nossos sentimentos como sendo um reflexo condicionado nos dá a justa capacidade de buscar uma solução para o problema que nos causa prejuízos e aborrecimentos sem nos envolvermos emocionalmente. 

Isso poderia ser comparado a eliminar o fogo das paixões, simplesmente separando o fato ocorrido (que vai precisar de nossa atenção para ser resolvido) com os nossos sentimentos, como sendo duas coisas distintas e separadas. 

Mas, mesmo sabendo dessas coisas, o sofrimento emocional ainda não se dissipa imediatamente, pois fomos condicionados durante toda a nossa vida a acreditar nas emoções como algo gerado em consequência de situações exteriores. 

Compreender e praticar isso nos auxilia a não mais sucumbir descontroladamente em uma torrente de paixões e temos mais chances de nos conduzir para fora do torvelinho de emoções que nos consome.

Na fábula, “Sorria para o urso no fundo do poço”  , um ursinho brincalhão encontrou um poço e, ao se aproximar, esbarrou em uma pequena pedra que caiu no seu interior. Curioso olhou a água, agitada no fundo, que refletiu sua imagem distorcida. Assustado fugiu gritando: 

‒ Mamãe… mamãe! Tem um monstro feio e malvado no fundo do poço!

Mamãe ursa, percebendo a inocência do filhote, que se assustara com o próprio reflexo, lhe disse:

‒ Volte lá e sorria para ele.

O amedrontado ursinho fez o que sua mãe lhe pediu e viu sua imagem refletida no espelho d'água, agora já estagnada. Sorriu, e retornou dizendo: 

‒ Mamãe, não é um monstro malvado, não... ele é apenas um ursinho, e quando eu sorri para ele, ele sorriu para mim também.

A vida é como um espelho d'água que reflete nosso interior. Se nossa mente estiver agitada, tudo parecerá confuso e ameaçador. Aceitar os momentos de tristeza, a solidão e o vazio interior sem rejeitá-los, contemplando nosso próprio interior, é como sorrir para o urso no fundo do poço. Eles continuarão ali a nos refletir por um certo tempo, mas não nos sentiremos incomodados, e nem nos importaremos mais com eles. Por fim, a própria tristeza sorri para nós também.

Texto extraído do livro "EU SOU VOCÊ" (do mesmo autor) 


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