Prisioneiros do desejo

 


Prisioneiros do desejo

Um menino pobre vendia doces para ajudar sua família paupérrima a suprir suas necessidades básicas. Certo dia, ele fez uma aposta de alguns tostões em um jogo de apostas e ganhou uma bolada. Com essa grana ele comprou sua primeira bicicleta novinha. Ele sentiu tanto prazer com essa conquista que jamais parou de buscar e acumular cada vez mais riquezas durante toda sua vida. Mesmo quando ele já estava velho e tinha poder e todas as coisas que o dinheiro podia comprar, ainda assim sentia que lhe faltava algo; o que lhe mantinha sempre ansioso em busca de novos negócios e conquistas que pudessem lhe proporcionar novas satisfações.

Só que ele não precisava de mais nada, pois sua fortuna lhe garantia a posse de tudo. Mas ele era prisioneiro (assim como todos nós) desta busca insana do desejo de possuir e desfrutar. 

Um dia ele parou sua lancha de 70 pés em um posto náutico de abastecimento. Dois mil litros de combustível, (para ser consumido em seu final de semana) resultaram em uma despesa de três mil e quinhentos dólares, que não significava nada em seu orçamento, pois sua fortuna lhe garantia esses desperdícios. Mas nada disto lhe dava mais satisfação!

 Enquanto aguardava o abastecimento de sua lancha viu um menino pobre se divertindo com sua bicicleta, e deu-se conta de que suas riquezas pouco lhe valiam, pois nada se comparava ao prazer que sentiu quando comprou sua primeira bicicleta. 

Somos viciados em buscar a sensação de euforia e alegria que sentimos ocasionados pelos “hormônios da felicidade” secretados em nossa corrente sanguínea (endorfinas, serotoninas e dopamina), que nos relaxam e nos dão a sensação de felicidade e plenitude toda vez que ganhamos ou adquirimos algo que desejamos muito.

Só que nosso cérebro deixa de produzir esses hormônios algumas horas ou alguns dias depois do evento, quando então nos acostumamos com a posse daquilo que conquistamos, relegando-o a ser só mais uma das coisas que nos pertencem e que já não damos mais o mesmo valor que representava quando tínhamos o desejo de possuí-las.

Passamos então a desejar outras coisas, e não medimos esforços para obtê-las, não porque precisamos necessariamente delas, mas pelo prazer que sentimos sempre que conquistamos algo.

A programação de nossa mente, então, é a seguinte:

·     Criar o desejo e a necessidade de possuir algo novo sempre que possível (porque o que temos já não nos satisfaz totalmente).

·     Trabalhar e se esforçar para conquistar esse ideal desejado.

·     Sentir o prazer de possuir e conquistá-la.

·     Se entediar com a posse disto, e recomeçar tudo de novo, indefinidamente.

Não importa o que tenhamos, nem a riqueza que já conquistamos, sempre vamos querer algo mais.

E esta necessidade existe em todos os níveis, desde um trabalhador assalariado, bem como uma pessoa de classe média alta, ou um bilionário. Todos estão programados da mesma forma: desejar; se esforçar; obter; se alegrar; se entediar e desejar outra coisa…

Quando os seres humanos viviam como caçadores-coletores na natureza selvagem, seus únicos desejos, assim como qualquer outro animal, eram basicamente três:

·     Alimentação

·     Abrigo

·     Reprodução

… e viviam, lutavam e morriam por isto.

Estes desejos ainda representam nossas necessidades básicas e é, de certa forma, o que nos move. Mas quando todas estas necessidades estão atendidas passamos a desejar riquezas (riquezas aqui mencionadas no sentido de quaisquer economias financeiras que pode se ter, como reserva cambial, planos de saúde, seguro de vida e aposentadorias previdenciária), pois com elas temos a garantia que não ficaremos sem nossas necessidades básicas.

Só que quando conseguimos riquezas e temos dinheiro suficiente para comprar as coisas que desejamos e necessitamos, chegará um momento em que ainda nos sentiremos inseguros e insatisfeitos. Sairemos então em busca de Poder (sobretudo o poder de influenciar e controlar pessoas).

Tanto pessoas detentoras de grandes fortunas com poderes financeiros e políticos de controlar multidões, bem como de qualquer cidadão comum que conquistou algum status social e que têm condições financeiras de contratar ou explorar a mão de obra de terceiros, todos têm um desejo em comum: a necessidade de ter pessoas lhes servindo e, por conseguinte, garantindo a manutenção de suas posses, e/ou contribuindo para aumentar seus lucros, que por sua vez garantirão suas necessidades básicas (que nessas alturas nem lembramos mais).

Mas mesmo as pessoas que têm poder e riquezas nunca estão plenamente satisfeitas e acordam todos os dias numa busca frenética de conquistar algo que lhe supra sua necessidade de mais satisfação, numa eterna luta que não cessa nunca.

Existe um limite para o prazer e a satisfação. Pescar com seu filho ou seu neto com um caniço de bambu a sombra de velhas árvores à beira de um tortuoso riacho pode ser tão prazeroso quanto qualquer outro evento caro e sofisticado. Só que nossa mente nos engana a conquistar valores caros e dispendiosos para compensar o prazer que deixamos de sentir por coisas simples... e esse impulso existe, com a mesma intensidade,  em todos os níveis sociais; o que muda é só a  capacidade financeiro disponível.

Autor: Flavio Goulart Rodrigues

Texto extraído e adaptado do livro "EU SOU VOCÊ e o mundo um espelho que nos reflete" (do mesmo autor)


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Muito Obrigado

to extraído e adaptado do livro: “Eu sou você”


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