DESCULPAS EM TRÊS NÍVEIS
Na série de televisão "Todo Mundo Odeia o Chris", numa conversa com seu pai, Chris (Tyler J. Williams) lamenta estar sentindo-se mal por ter ofendido uma garota. Seu pai então lhe diz que ele deve ir até a garota e lhe pedir desculpas.
— Mas peça desculpas nos três níveis — reforça Julius (Terry Crews)
— E como é isso? — perguntou Chris.
— Primeiro, você pede desculpas pura e simplesmente. Depois, você admite que estava errado. E, terceiro, você deve deixar claro que isso não vai acontecer de novo.
Resumindo: “Me desculpe por minha ofensa… meu comportamento foi inadequado… isso não vai mais acontecer” (e se comprometer a isso, é claro!).
A formalidade pode ser um recurso bastante valioso nesses momentos e uma demonstração civilizada e inteligente de agir quando estamos embaraçados e não sabemos muito bem como nos comportar. Nesses casos, os protocolos e formalidades nos tiram de situações embaraçosas quando não sabemos muito bem o que dizer, e um simples pedido de desculpas pode substituir o inconveniente de uma longa explicação.
Mas um pedido de desculpas não deveria ser uma atitude unilateral; ao contrário, deveria envolver o comprometimento de ambas as partes, o que nem sempre acontece. Assim como uma pessoa cria coragem e iniciativa de pedir desculpas, o outro deveria perceber o esforço que essa pessoa está fazendo para se redimir e igualmente se esforçar para aceitar o pedido de desculpas, evitando dar sermões e botar “lenha na fogueira”, reforçando a culpa do outro.
A melhor maneira de se encerrar um pedido de desculpas e finalizar a conversa é dizer pura e simplesmente:
— Eu aceito suas desculpas, e também aproveito e lhe peço desculpas pela parte que me toca...
Ou alguma outra justificativa, mesmo que seja formal ou protocolar, pois isso ameniza a culpa do outro, contribuindo para restabelecer o relacionamento à sua normalidade. Até porque devemos considerar que, na maioria dos conflitos, ninguém é completamente inocente; ao contrário, somos todos vítimas das circunstâncias.
Se, todavia, o pedido de desculpas não for verbalmente aceito, fica a sensação de que o ofendido se considera ainda muito ferido e prejudicado para poder perdoar, e o máximo que pode fazer naquela circunstância é pôr uma pá de cal no assunto.
Se um conflito não pode ser desfeito pelo perdão e pela racionalidade, isso poderá se agravar e levar a outras situações desagradáveis e prejudiciais para todos, principalmente para quem armazena mágoas e não concede o perdão.
Perdoar não significa esquecer (isso se chama amnésia); perdoar é se colocar no lugar do outro e tentar entender os motivos dele, na perspectiva dele. Perdoar é, ainda, tentar sentir compaixão pelo próximo, compreendendo o que o motivou a agir da forma como agiu.
Se a gente consegue entender os motivos do outro, mesmo que esses motivos tenham sido torpes e equivocados, fica mais fácil se colocar na condição de mediador. E quem compreende o outro fica com o controle da situação. Mesmo que essa compreensão nos leve à conclusão de que aquela pessoa esteja embriagada na sua própria estupidez e ignorância e que é através dessa ótica que ela vê o mundo e interage com as pessoas.
Quando conseguimos entender o que move o outro, apartamo-nos do envolvimento emocional e da vitimização e nos tornamos observadores dos acontecimentos.
O evangelho da paixão de Cristo nos conta que Jesus, em seus últimos momentos pregado na cruz, disse:
— Pai, perdoa, pois eles não sabem o que fazem!
Esta narrativa nos dá um claro exemplo de resiliência e compreensão do ponto de vista do outro: dos soldados romanos que foram treinados desde meninos para matar, ou dos anciãos judeus que foram doutrinados durante suas vidas toda a acreditarem e viverem conforme os ensinamentos da Torá e das leis hebraicas e, por conseguinte, julgavam Jesus como um dissidente e um criminoso. Dessa forma, Jesus mostrava que estava imbuído no evento, mas apenas como observador. Não havia mágoa e não havia ressentimento. Para Ele, naquele momento, perdoar seus algozes no ápice de seu sofrimento o libertava de todas as mazelas humanas (da roda de Samsara no budismo) e lhe dava a profunda compreensão da ilusão (de Maya no hinduismo) que torna todas as pessoas cativas de seus próprios referenciais.
Existe ainda um pedido de desculpas que pode ser usado como um recurso de retórica, não porque tenhamos feito algo errado que justifique nossas escusas, mas para acalmar os ânimos de alguém que esteja se sentindo vitimizado por algo que supostamente foi dito ou feito contra ela, e que, por conta disso, esteja demonstrando algum tipo de descontrole, mágoa ou retaliação. Na maioria das vezes, quando dizemos frases como:
— O senhor está certo, eu lhe peço desculpas!
Ou… acho que me expressei errado, retiro o que eu disse e lhe peço desculpas…
Quando ditas no meio de discussões acaloradas ou situações de conflitos que estejam fugindo do controle, essas palavras desconcertam e desarmam a agressividade alheia (mesmo com pessoas estranhas) e nos dão tempo de raciocinar e buscar outra forma de comunicação.
Muitas situações infelizes, dramáticas e até trágicas poderiam ter um desfecho completamente diferente se o mais sensato e racional tomasse para si a culpa naquele momento (mesmo que não a tivesse).
Existe também, o pedido de desculpas não verbal. A maioria das pessoas tem medo ou vergonha de pedir desculpas. Mas percebem que erraram ou tiveram, num dado momento, atitudes exageradas ou agressivas e tomam medidas dissimuladas na tentativa de se aproximar daquele que ofenderam. Na maioria das vezes, isso pode ficar subentendido como sendo um pedido de desculpas se a parte ofendida tiver resiliência e compaixão para perceber e aceitar, não dando mais importância ao ocorrido. Conflitos e desentendimentos resolvidos dessa forma têm grandes chances de voltar a ocorrer outra vez caso o ofensor não tenha se avaliado adequadamente ou tampouco tenha feito uma reflexão sobre suas atitudes, nem se comprometido a não repetir o ocorrido, e só busca retornar à sua zona de conforto no relacionamento, na maioria das vezes, por conveniência ou necessidade.
É bom lembrar ainda que a maioria das brigas e conflitos entre as pessoas são por tolices e não justificam a perda de tempo e o desgaste emocional que normalmente produzem, sendo que a vitimização é o sentimento final que fica em uma pessoa que se sente magoada ou que se julga vilipendiada e prejudicada, e esse sentimento (a vitimização) é extremamente danoso, pois nos leva a reforçar uma imagem equivocada da realidade, fortalecendo a ideia de que o outro é totalmente culpado de nossas mazelas, justificando assim alguma forma de retaliação, normalmente se isolando e negando sua amizade e atenção durante algum tempo (quando não para sempre).
O perdão é a forma racional de nos libertarmos da escravidão da vitimização e da mágoa
“O problema de uma ofensa é tanto de quem ofendeu quanto daquele que se sentiu ofendido.” (autor desconhecido)
Autor Flavio Goulart Rodrigues
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Texto extraído do livro: "EU SOU VOCÊ... e o mundo é um espelho que nos reflete" (do mesmo autor)
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