EFEITO BORBOLETA
Final 1
Numa fração de segundos lhe veio as palavras de seu pai que lhe dissera alguns dias atrás: “Há coisas em nossas vidas que pensar demais só atrapalha". Ele pulou da cadeira. Se esgueirou no meio da multidão, pegou a mão da garota e a puxou para si, forçando-a a soltar a mão do rapaz que a acompanhava. Ela rodopiou e ficou diante dele com aquele mesmo sorriso de antes. Ele ficou paralisado. Não sabia bem o que dizer. Levou seu rosto próximo ao dela e lhe disse: − Espere... onde você vai? Ela disse qualquer coisa que o barulho da banda o impediram de entender, mas de qualquer forma ele não estava interessado mesmo em saber para onde ela pretendia ir.
Quero falar com você. Fique mais um pouco.
Ela sorriu, virou-se para o rapaz que a aguardava e sinalizou com um dedo que precisava de um minutinho. O rapaz concordou e se afastou. Ela levou seu rosto próximo ao dele e lhe disse: − Fale!
− Bem… foi a primeira vez que dividi uma cadeira com alguém... gostaria de conhecer essa pessoa… quem é o rapaz que te acompanhava?
− Não é meu namorado se é o que você quer saber… na verdade ele está esperando o namorado dele que está demorando pra chegar.
Ficou feliz e aliviado por saber que ela nao tinha namorado.
− Como é teu nome?
− Amanda - Disse ela - e o teu?
O resto da noite eles se conheceram, beberam, conversaram, se beijaram e se divertiram.
Acordou por volta das doze horas do dia seguinte, e o resto do dia contava os minutos para vê-la de novo.
Apaixonaram-se e casaram em menos de um ano. Tiveram dois filhos, depois os netos... e uma vida repleta de viagens e encontro com amigos e familiares.
Vez por outra, alguém pedia para que contassem a história de como dividiram uma cadeira e se conheceram.
Final 2
... mas o que para ele poderia durar uma eternidade, acabou tão inesperadamente quanto começou, com ela virando-se para trás, olhando-o e lhe dizendo algo que parecia ter sido: “obrigado... tchau”, e descendo rapidamente da cadeira, onde um rapaz a pegou pela mão e desapareceram na multidão…
Desceu da cadeira sentindo-se ainda meio inebriado pela garota. A festa parecia ter perdido todo o brilho. Bebeu mais algumas cervejas tentando se animar, mas acabou voltando cedo para casa. Acordou no outro dia quando sua mãe lhe chamou para o café. Levantou-se e, na mesa com seus pais, pensou na garota, mas não deu muita importância ao caso, afinal o que ele poderia ter feito naquela situação? A garota estava acompanhada e ele não teve a chance de lhe dizer algo mais... certamente nunca mais a veria… e de fato nunca mais a viu mesmo.
Oito anos depois casou-se com uma colega de trabalho. Construíram uma casa e tiveram dois filhos. Mas a relação dos dois fora sempre conflituosa e acabaram separando-se quando os filhos foram para a faculdade.
Efeito Borboleta
Encontrou certo dia com um dos amigos em um bar. Pediram cervejas e conversaram:
Como você está? O que tem feito na sua vida? – Perguntou ao amigo:
− Eu estou divorciado. Fui professor de filosofia na universidade, mas agora estou aposentado e moro sozinho com meu cachorro.
−Filosofia? Nunca soube que você gostasse de filosofia.
− Na verdade, sempre gostei do estudo das ideias e reflexões sobre o pensamento humano e a vida, e num dado momento as oportunidades apareceram e acabei entrando para a universidade. Mas, e você o que faz de sua vida?
− Trabalhei em uma montadora de veículos durante muitos anos, mas agora estou aposentado também. Comprei um sítio recentemente e estou construindo uma casa lá. Também me divorciei, mas tenho uma namorada que mora comigo.
− Você por acaso casou com a moça da cadeira? E os dois se puseram a rir.
− Claro que não! Mas você lembra ainda dessa história?
− Claro! Vamos combinar que foi uma situação inusitada, e a gente pegou no seu pé por causa da sua cara de desapontamento por ela ter ido embora. O que aconteceu com você naquela noite, afinal? Quando lhe procuramos você tinha sumido.
− Comigo? Comigo nada! A garota subiu na cadeira, a gente ficou ali alguns momentos juntos, depois ela foi embora. Ela tinha um namorado, lembra?
−Bem eu lembro que tinha um rapaz com ela; se era seu namorado ou seu irmão eu não sei. Depois bebeu um gole da cerveja e completou:− Você já pensou que nossa vida inteira do jeito que é no momento presente, é só um amontoado de milhares de pequenos acontecimentos que geram tomadas de decisões aleatórias o tempo todo? E que, a cada decisão, nossa vida dá uma guinada mudando todo o resto dos acontecimentos posteriores? Se qualquer decisão, das milhares que nós tomamos em nossas vidas, inclusive as mais corriqueiras, que sequer damos importância, tivesse sido alteradas no passado, tudo o resto teria mudado completamente?
E prosseguiu dizendo: Eu tenho um amigo que ficou de fazer uma pescaria com mais três amigos. Mas no dia de pegarem a estrada seu filho caiu de uma árvore e quebrou o braço e, por conta disso, ele não pode ir. Mais tarde a noite ele soube que o carro, em que viajavam os amigos, se envolveu em um grave acidente onde morreram todos os ocupantes no local.
Todo mundo concorda que se ele tivesse ido naquela viagem, também teria morrido. Mas não é bem assim!
O simples fato de ele não ter embarcado naquele carro mudou o destino de todos. Mas não há nada de metafísico nisso. Só que nossa presença em grupo interfere o tempo todo no tempo e no modo em que as coisas acontecem: Uma pessoa leva um certo tempo para se acomodar em um carro, colocando seus pertences no porta malas e embarcando, o que muda o momento de partida. Qualquer fração de segundos de diferença na saída de um veículo em direção ao seu destino muda a configuração em que ele se movimenta no trânsito, determinando os carros que estarão à sua frente ou os que estarão atrás, fazendo com que acelere e freie de forma diferente, dependendo da posição em que se encontra. Isso muda o tempo em que ele passa em um cruzamento ou pare em um sinaleiro, o que vai determinar exatamente o tempo em que o veículo vai estar em determinado ponto durante todo o seu percurso. Se meu amigo tivesse embarcado, o carro em que viajavam poderia estar alguns segundos ou talvez minutos antes ou depois do fatídico ponto de impacto com o outro veículo. Portanto, o mais lógico é a gente acreditar que, se meu amigo tivesse ido pescar, não teria havido o acidente e seus três amigos não teriam morrido. Ou poderíamos pensar ainda: Se o seu filho não tivesse subido na árvore, três pessoas que foram mortas naquele acidente, estariam vivas sem que não tivessem a menor ideia dessa possibilidade. Isso é o que a ciência da Teoria do Caos tem chamado de "Efeito Borboleta”, que diz que o bater de asas de uma borboleta pode gerar uma série de pequenos eventos que se somarão e resultarão em um acontecimento de grandes proporções em outro lugar.
Os dois ficaram em silêncio durante alguns segundos, enquanto bebiam suas cervejas e degustavam os aperitivos.
− Estou aqui tentando entender como a garota da cadeira se encaixaria nessa equação – disse sorrindo para o amigo.
− É só uma reflexão! Gosto de pensar nessas coisas. O que me leva a questionar o que seria de sua vida se você tivesse ficado naquela noite com aquela garota?
− E como seria isso? Perguntou ele, enfiando a mão no pote de amendoim sobre a mesa.
− Bem… é só você tentar imaginar o que teria acontecido com sua vida se tivesse descido da cadeira e conversado com ela?
− Bem… eu poderia ter criado um problema com a garota e o namorado dela…
− Podia ser que o rapaz não fosse seu namorado… vai saber se ele não era o irmão dela… ou apenas seu amigo?
Terminou de mastigar os amendoins, bebeu mais um gole de cerveja e questionou:
− Mas e se esse efeito borboleta não existir? E se tudo em nossa vida nos empurrasse sempre para um final previsto, de forma que os eventuais desvios ocasionados por nossas dúvidas ou medo de tomar uma decisão fossem sendo corrigidos de alguma outra forma para que os acontecimentos sempre nos levassem a um resultado que já estivessem previamente definidos?
− Bem, isso é acreditar em destino. Você acredita nisso?
− Sim, acredito! Pela hipótese deste “efeito borboleta” se eu tivesse ficado com aquela garota naquela noite, tudo na minha vida e na vida das pessoas que cruzaram meu caminho teria sido dramaticamente mudada. Talvez nunca tivesse trabalhado na montadora e conhecido a mulher com quem me casei. E meus filhos e meus netos seriam outras pessoas. E a gente sequer estaria nesse bar tendo essa conversa neste momento. No entanto, acreditando no destino, podemos supor que a vida teria dado um jeito para que as coisas acontecessem como tinham de acontecer. Logo, não importa qual tivesse sido minha decisão naquela noite, de qualquer forma eu acabaria com a vida que eu tenho hoje do jeito que está. E nós estaríamos de qualquer forma conversando sobre essa questão do tempo aqui nesse bar nesse momento.
− São duas formas diametralmente opostas de se pensar. Acho que o efeito borboleta faz mais sentido para mim.
− Pode ser, mas continuo acreditando no destino.
Trocaram de assunto, pediram mais uma rodada de cerveja, compartilharam seus números de telefone e foram embora prometendo que manteriam contato.
Epílogo
A noite em casa deitado na cama, aquela conversa com o amigo não lhe saía da cabeça. Lembrou-se do baile de carnaval e da garota, e pensou:
− Onde estará aquela garota? Como será sua aparência hoje? O que terá acontecido com ela? Como teria sido nossas vidas se o destino realmente estivesse traçado entre nós dois?
Estava envolvido nesses pensamentos quando foi interrompido por sua namorada que lhe trouxe uma xícara de chá. Ficou olhando para ela sentada na borda da cama enquanto bebericavam o chá. Ela era uma mulher bonita apesar de sua idade. Ele Interrompeu o silêncio e perguntou:
− Meu amor, você gosta de Carnaval?
− Bem... hoje eu não ligo muito, mas quando eu era jovem eu adorava os bailes de carnaval nos clubes da nossa cidade… por que você está me perguntando isso querido?
− Você já teve um amigo gay?
− Amigo gay? Sim, já tive um amigo gay…
− Por acaso você lembra de alguma vez ter subido em pé em uma cadeira junto com um estranho num baile de carnaval?
E ela deu uma gargalhada e disse balançando a cabeça:
− Como eu vou lembrar disso? Que história louca é essa, meu amor? De onde você tirou essa ideia?
− Nada não querida, foi só uma bobagem que me passou pela cabeça…
Autor - Flávio Goulart Rodrigues
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Leia o livro "EU SOU VOCÊ... e o mundo é um espelho que nos reflete" (do mesmo autor)
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