Tempos modernos

 


É muito legal entrar em uma fábrica e ver os processos industriais com operários bem treinados desempenhando, ritualisticamente, suas funções em processos cada vez mais aprimorados e eficientes.

Ver isso uma vez em uma visita dirigida com um guia em uma fábrica  é realmente muito interessante e empolgante. Agora imagine aquele mesmo operário que  passa oito horas por dia durante o ano todo fazendo exatamente essa mesma tarefa... podemos facilmente concluir que é uma atividade entediante, desgastante e de certo modo desumana, não? 

Charles Chaplin em seu filme “Tempos modernos” interpreta um operário em uma linha de montagem numa fábrica. O filme é uma crítica social incisiva ao trabalho alienante, mostrando os efeitos negativos em trabalhadores expostos a uma longa jornada de trabalho  executando tarefas como se fossem máquinas?

Outro dia me dirigi ao caixa de uma grande loja onde havia vários check-outs com várias moças que faziam as cobranças dos clientes em suas compras. A moça que me atendeu estava visivelmente entediada tentando disfarçar sua falta de motivação com algumas gentilezas protocolares. Eu lhe perguntei então se ela trabalhava a muito tempo naquela loja. Diante da sua confirmação eu lhe perguntei (gentilmente) se ela gostava daquele trabalho. Ela terminou de passar minhas compras e me respondeu sem dar muita importância ao que estava respondendo, como se falasse consigo mesma (quase em um desabafo): Eu estou mesmo é cansada disso! 

Saí pensando naquela moça e no que ela me disse e o quanto sua vida era frustrante sobretudo por ter de passar um terço do seu tempo presa como um passarinho numa gaiola, onde ela não tinha outra alternativa senão largar, todos os dias, sua vida e sua família para trabalhar para alguém que a pagava pelo seu tempo. 

A filosofia do trabalho afirma a priori que nenhum ser humano gosta realmente de trabalhar e que por isso todos (sem exceção) se possível gostariam de obter um cargo de chefia para, dessa forma, administrar o trabalho de outros e, se possível, se tornar empresário e obter lucros com a exploração da mão de obra de outras pessoas, o que lhe garantiriam suas necessidade básicas e econômicas atendidas.   

Dito dessa forma nos parece estranho o que estou dizendo: É claro que as pessoas precisam trabalhar…e é claro que as pessoas sonham em montar seu próprio negocio e obter lucros pagando pela mão de obra menos do que essas pessoas produzem. Achamos tudo isso natural porque nascemos e fomos criado dentro desse modelo capitalista, mas por mais estranho que isso possa nos parecer ele não é equânime… ou seja: não é justo para todos na mesma equivalência, e a grande maioria das pessoas pensam que nao existe um outro modelo que possa substituir esse modelo atual e ainda assim manter o "Status Quo" com as pessoas vivendo suas vidas comprando e consumindo bens de consumo.

Todavia todos esses trabalhos que mobilizam e sustentam a sociedade moderna estão com os dias contados, e em 40 ou 50 anos toda mão de obra será substituída por máquinas  e programas de Inteligência artificial. 

Várias profissões que conhecíamos lá nos idos anos 60 já desapareceram,  e muitos setores, como o setor bancário por exemplo, estão sendo engolidos pelas alternativas digitais e outras formas de gestão econômica e financeiras. 

Isso não é uma coisa que eu deseje nem que torço para que aconteça, mas já está acontecendo e é um caminho sem volta, e as empresas que não se adaptarem irão a falência, pois as máquinas produzirão muito mais com menos custos e desbancarão a concorrência, a exemplo do que aconteceu na revolução industrial no final do século 18, que acabou com os pequenos agricultores e artesãos que passavam seus conhecimentos de pai para filhos há diversas gerações e que, em um dado momento, não podiam mais competir com os produtos produzidos pelas máquinas industriais, muito mais abundantes e baratos do que eles podiam produzir em suas pequenas oficinas familiares.

Mas aí você pergunta: Mas se as máquinas farão tudo, haverá cada vez mais pessoas desempregadas... e, nesse caso,  como aquela moça que trabalha no caixa daquela loja vai viver se estará desempregada? E afinal quem comprará os produtos produzidos pelas máquinas?

Esse será o grande dilema que nossa sociedade terá de enfrentar.

Uma resposta provável é  que estamos caminhando a passos largos para um iminente colapso da economia mundial em algumas décadas, quando o número de pessoas com emprego e renda não for suficiente para atender a demanda de consumo da indústria. A sociedade terá então de se reinventar e a única saída possível é o “socialismo democrático” onde toda a infraestrutura social como: educação, saúde, transportes coletivos e moradia serão responsabilidades dos governos. Ja a criação da "Renda Básica Universal" é um recusso que deverá ser oferecido a todo cidadão comum para que vivam dignamente mesmo sem uma ocupação remunerada e, dessa forma, comprar os produtos produzidos pelas indústrias e movimentar a economia .

Estamos no limiar de uma nova revolução tecnológica e cultural que vai mexer com todos os alicerces sociais. Nossa sociedade será irreconhecível no próximo século e possivelmente representará o fim do modelo capitalista como nós o conhecemos.


Autor: Flavio Goulart Rodrigues 

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