Ensaio sobre as consequencias do amor
No livro “O Profeta”, o poeta árabe Khalil Gibran fala sobre o casamento:
"... juntos ficareis para sempre... mas que haja espaços na vossa união...pois as cordas de uma harpa... separadas...vibram ao som da mesma música."
A música "Eduardo e Mônica" (Legião Urbana), fala do encontro amoroso e da vida de dois jovens que não tinham nada em comum.
"... mesmo com tudo diferente
Veio meio de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia
Como tinha de ser…"
E como a própria música fala no início:
"Quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?"
Mas vamos analisar, então, quais são essas razões feitas pelo coração, que a própria razão desconhece.
Existe uma frase que diz que “a pessoa certa é aquela que chega até nós naquele momento”. Não talvez qualquer pessoa, mas aquela que nos cativa e que também é cativada por nós.
A ciência não sabe ainda que mecanismos são esses, mas já se sabe que é uma equação matemática onde nosso instinto calcula em segundos uma série de variáveis que fogem de nossa vontade e compreensão racional.
Quando encontramos a pessoa amada, nós simplesmente gostamos do seu riso, do seu jeito de falar, do seu jeito de olhar, do seu jeito de pensar, ou até de sua timidez, que não nos mostra absolutamente nada disso, e já nem sabemos mais porque raios queremos vê-la de novo.
Mas depois de Cupido nos flechar, vêm os relacionamentos, e é então que tudo o que a natureza juntou encontra-se com o ego e começa uma luta entre o bem e o mal. Mas não que um seja o bem e o outro o mal, mas na luta entre nosso ego e nosso coração.
E assim passamos a tentar reformar o outro, pressupondo que só porque temos algum tipo de laço afetivo a pessoa deverá deixar de ser ela mesma para atender às nossas expectativas.
Mas quem disse que precisa ser assim? Que as pessoas não possam continuar se amando com a mesma ternura e admiração que tinham quando se encontraram, mesmo sendo diametralmente opostas, e aparentemente não tendo nada em comum uma com a outra, de maneira que todos digam: "Não sei o que ela viu nele?"
Quem disse que uma mulher erudita, com formação universitária e uma carreira de sucesso, não possa se apaixonar por um homem iletrado, que se comporta como um homem rude e sem instrução, se tudo o que ela ama nele seja justamente isso e que desperta nela uma paixão fora de sua compreensão? Como a paixão da princesa Fiona pelo ogro Shrek.
No filme "Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento" — baseado em fatos reais — narra-se a história de Erin (Julia Roberts) que, por pura impetuosidade, obriga um escritório de advocacia a lhe dar um emprego de assistente. E como, por puro acaso, ela acaba desenterrando um processo arquivado contra a PGE, uma corporação bilionária, com influência política e econômica absurda avaliada em bilhões de dólares e que, por seu imenso poder, podia abafar escândalos ambientais por décadas. Mas a inteligência, perspicácia, tenacidade e impetuosidade de Erin levaram o pequeno escritório de advocacia, onde trabalhava, a conquistar na justiça uma indenização de 333 milhões de dólares às vítimas de contaminação.
Mas essa é a história central. O que nos interessa mesmo é contar aqui o seu relacionamento com George (Aaron Eckhart), seu vizinho. Um motoqueiro, desempregado, que gostava de Rock n' Roll e da vida livre com seus amigos motoqueiros, mas que largou toda a sua vida selvagem e sem propósito para cuidar da casa e das crianças de Erin, como se ele fosse um ganso selvagem que voava longas distâncias pelo simples prazer de voar, mas que largou seu bando quando se apaixonou por Erin e encontrou um novo propósito para sua vida: cuidar da casa, das crianças e da mulher amada. Mulher esta que tinha a força de uma leoa feroz... que deixava seus filhotes para caçar, e da qual ele sabia que ele não poderia se igualar. Mas conseguia admirar sem preconceito.
Perceba também que em nenhum momento Erin tenta moldar George, lhe dizendo que ele deveria ter, assim como ela, mais expectativas e vontade de ter sucesso financeiro na vida, pois ela tinha a sensibilidade de perceber que esse era o modelo dela, não o dele.
Poderíamos encher um livro inteiro com casos semelhantes de pessoas que se apaixonaram e encontraram a felicidade uma na outra, e só conseguiram viver suas paixões porque aceitaram e respeitaram as diferenças e individualidades e o espaço entre elas (como as duas colunas do templo que separada sustentam o teto).
No mesmo filme, mostra também o relacionamento profissional de Erin com seu chefe e CEO Ed Masry (Albert Finney). A narrativa nos mostra que o resultado final do inquérito só foi uma história de sucesso porque ele conseguia conviver com o mau humor, e até a arrogância e impertinência dela, como sendo característica única que definia sua personalidade e força de caráter.
O segredo, nos parece estar então, em a gente aceitar as diferenças um do outro sem julgar e sem querer mudar o comportamento individual de cada um, ou pretender que o outro se ajuste ao nosso modelo idealizado.
Esse é, sem dúvida, o motivo de todos os conflitos e desajustes familiares: Estamos sempre pretendendo consertar o outro a partir de nossos referências e expectativas.
Nós temos uma tendência a olhar e nos comunicar com o outro travestido com uma "roupa" que nós vestimos mentalmente nele, pretendendo que o outro seja da forma como nós o idealizamos, ignorando suas particularidades e a forma diferente que ele vê o mundo.
Quando um casal faz amor, eles tiram suas roupas e é completamente nus que se entregam um ao outro. Pois, da mesma forma, devemos usar essa mesma metáfora para nossos relacionamentos.
Nossas máscaras definem a imagem que queremos mostrar ao mundo, mas nos despimos e nos mostramos como somos em essência na presença da pessoa amada e igualmente deveríamos olhar o outro sem a indumentária que gostaríamos que vestissem.
E para finalizar, no filme de animação Madagascar, Melman, a girafa, tem um amor platônico por Glória, a hipopótamo. Em vários momentos no filme, a timidez de Melman o impede de se declarar à Glória, pois Melman é um cara esquisito, inseguro e hipocondríaco (eu nunca tinha percebido esse trocadilho rsrsrs) e Gloria é uma mulher segura e determinada. Mas a gente torce para que Melman consiga se abrir e conquistar o amor de Glória.
Interessante notar também é que as diferenças de personalidades de ambos, e tampouco o fato de serem criaturas de espécies diferentes que não podem acasalar, tenha alguma importância para o espectador, pois para o enredo do filme o que importa é o amor. O resto são apenas detalhes.
Em uma conversa com uma pessoa, ela tentava usar o argumento de que dois homens ou duas mulheres não poderiam se unir em matrimônio, pois (segundo a Bíblia) Deus nos fez macho e fêmea para gerar filhos e, nesse caso, como duas pessoas do mesmo sexo poderiam gerar filhos? Ora, essa pessoa, que me dizia isso, está casada já há 15 anos e não tem filhos. Então foi fácil desfazer seu argumento de que as pessoas se uniam para ter filhos, uma vez que ele mesmo não tem. Então, está casado por quê?
Eu mesmo perguntei e também respondi: ... por amor!
Então, podemos concluir que as pessoas fazem sexo pura e simplesmente porque se amam, sem nenhum outro propósito. Não importa seus gêneros, suas raças, seus gostos e esquisitices, seus hobbies e tudo o resto. Só o que importa é que se amam e querem estar juntos, apesar de suas diferenças.
Nota: "Os gansos selvagens são grandes, fortes e voam em bandos, cruzando céus inteiros em formação em "V". Esse voo em grupo representa a irmandade dos motoqueiros, que dependem uns dos outros na estrada, assim como os gansos dependem da formação para economizar energia no voo.
Mas aqui vem a parte mais interessante: os gansos são extremamente fiéis. Quando encontram um parceiro, eles ficam juntos a vida toda. Se um ganso escolhe um companheiro, ele pode se separar do grupo e mudar totalmente seu estilo de vida para seguir esse amor."
Autor: Flávio Goulart Rodrigues
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