Ensaio sobre educacao infantil


Este é um ensaio sobre conduta, relacionamento e comportamento com crianças. Compilado a partir de uma carta escrita para minha filha, relatando minhas experiências com meu neto, na época com três anos e meio.

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Curitiba, 5 de novembro de 2020


Querida filha,

Eu comentei ontem com você o quanto o Theozinho foi um bom menino naquela tarde, e o quanto eu estava contente por ele ter se comportado tão bem. E a gente o parabenizou, para reforçar esse hábito nele. E ele ficou muito feliz com isso, lembra?

Hoje pela manhã, eu acabei lembrando de uma experiência quando estive com ele na casa de Vivian, algumas semanas atrás.

No segundo dia que estávamos lá, ele foi demonstrando, ao longo do dia, um certo descontrole emocional que foi tumultuando o ambiente e nos deixando cansados e estressados.

Ao amanhecer do outro dia, em minhas reflexões matinais, pensei em quais poderiam ser as causas daquele seu comportamento agitado.

Compreendi, então, que o comportamento de uma criança está diretamente vinculado ao estado de espírito de seus tutores, sejam eles seus pais, professores ou, no meu caso, seu avô, e à capacidade de nos mantermos atentos e vigilantes aos movimentos deles para fazer os ajustes necessários, antes que se perca o controle da situação. E, naquele dia, eu estive mesmo muito ausente, envolvido com minhas preocupações, meus compromissos e meu celular.

É como se houvesse uma conexão entre nós, e quando eu perco essa conexão, quando eu perco o olhar sobre ele, mesmo que muito sutil e imperceptível, ele, de alguma forma, percebe que estou distante e também perde o rumo, ficando agitado e desobediente, e fará de tudo em busca de atenção.

Passei um longo tempo refletindo sobre isso e concluí que uma criança na idade dele é uma máquina de sentir, programada para reagir e não tem quase nenhum controle sobre isso.

Isto é tão visível no dia a dia de qualquer criança, que chegamos à conclusão de que somos nós, os pais e educadores, que temos de nos adaptar nessa relação. E nossa obrigação é ajudá-los para que aprendam as regras deste mundo da melhor forma possível, para que cresçam, e se tornem adultos saudáveis, equilibrados e felizes.

À tarde, Rafaela precisava ir ao shopping comprar uma boneca em uma loja de brinquedos, onde nós estivéramos no dia anterior, e no qual o Theo esteve insuportavelmente indisciplinado e birrento.

A vó Lurdes se negou a ir conosco, pois estava junto no shopping no dia anterior, e não tinha a menor intenção de passar por aquilo de novo. E, para piorar, teve uma experiência extremamente desagradável com ele naquele mesmo dia no supermercado (eu não estava junto) e me disse ter chegado ao seu limite com ele.

Eu lhe falei, então, da conclusão a que eu chegara sobre a relação do mau comportamento dele estar vinculado a mim de alguma forma (a culpa teria sido mais minha do que dele). Mesmo ela não concordando muito, eu pedi que ela nos desse uma chance de demonstrar isso na prática. Queria mostrar a ela que eu poderia orientar o comportamento dele mudando o meu comportamento com ele. Ela concordou em ir conosco quando lhe prometi que eu cuidaria dele.

Durante esse passeio, do qual fomos a pé para aproveitar a caminhada, eu cuidei o tempo todo dele, lhe dando atenção na medida certa (nem demais nem de menos) e impondo alguns limites, também na medida certa (sem imposições exageradas).

Quando nós saímos de casa, eu deixei claro para ele que iríamos na mesma loja de brinquedos do dia anterior, onde a Rafaela iria agora comprar uma boneca (evitei a palavra "ganhar brinquedo" para não confundi-lo), e que ele deveria se comportar e apenas olhar os brinquedos. Ele concordou com certa relutância, demonstrando não estar entendendo muito bem esse complexo esquema social (por que ela vai ganhar um brinquedo e eu não?).

Na loja, eu o mantive na minha cacunda, onde eu poderia exercer melhor controle. Por diversas vezes, ele tentava pegar os brinquedos ao alcance de suas mãos nas prateleiras, mas eu reforçava o combinado: 'Nós não podemos pegar os brinquedos, a gente só pode olhar!' (Sabendo o quanto isso é difícil de assimilar para uma criança na idade dele).

Se ele ameaçava reclamar ou chorar, eu desviava a atenção dele para outro brinquedo e repetia tudo de novo: 'Hoje, só a Rafaela vai comprar, nós só vamos olhar e nos admirar, está bem?

Eu, às vezes, quando tenho que determinar alguma obrigação difícil de ele entender e aceitar, tento falar no mesmo tom de voz do Papai Pig (da animação Peppa Pig), pois esse personagem mantém sempre uma voz tranquila e uma postura de educador com infinita paciência. Me parece que Theo se identifica com isso, e demonstra mais facilidade de entender e aceitar as adversidades quando falo assim com ele.

No final, quando já estávamos quase de saída (...e a Rafaela demorou naquela loja!), pensei em comprar um mimo qualquer para lhe presentear pelo seu bom comportamento, mas me dei conta de que eu não poderia fazer isso, pois estaria, eu mesmo, quebrando o combinado. Fiquei com peninha dele, mas achei que era necessário, pois fazia parte do seu aprendizado. Até porque ele já tinha entendido e aceitado, de boa vontade, que aquele não era o momento dele.

Foi lá fora da loja, então, que a Rafaela, por iniciativa própria, resolveu dar a ele um baldinho de pipocas (que veio como brinde extra da compra junto com a boneca).

Acabou sendo uma experiência divertida para todos, pois ele aprendeu a esperar e, justamente quando estava fora da loja, recebeu o prêmio por seu esforço.

Com carinho...

Flavio

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Winnicott, psicoterapeuta inglês, nos fala sobre a "Mãe Suficientemente Boa", que pode ser qualquer pessoa que represente o ambiente materno (inclusive eu, naquele momento).

Em resumo, sobre seus aprofundados estudos da natureza infantil, ele chegou à seguinte conclusão:

O bebê no útero materno tem cem por cento de suas necessidades atendidas e é totalmente feliz, não havendo nada que lhe seja negado ou que lhe cause algum tipo de conflito.

Ao nascer, o bebê transfere esse ambiente para a mãe, que, com o seu calor e cuidados maternais, cria para o rebento uma simulação do confortável ambiente uterino.

Nas primeiras semanas após o parto, as mães, instintivamente, ficam completamente apegadas aos seus bebês e suas necessidades (Por isso, se diz que a mãe nasce com o bebê).

O bebê, em seus primeiros meses, não vê a mãe como sendo outra pessoa. Ele a vê como se ela fosse uma extensão dele mesmo ainda no útero.

À medida que ele cresce, todavia, começa a perceber que a mãe tem falhas e não atende todas as suas necessidades de conforto e atenção.

Winnicott cunhou o termo "Mãe Suficientemente Boa" para designar essa etapa, na qual a mãe já não está cem por cento presente, mas que atende às necessidades básicas, só o suficiente, para que ele desenvolva a sua individualidade e compreenda este mundo e suas regras.

Veja a responsabilidade dos pais e tutores em relação aos cuidados com uma criança, que é um adulto em formação e que segue certos padrões rígidos de comportamento, e que estão fora do controle dela. Isso ainda é ignorado pela maioria das pessoas, mas precisa ser compreendido por nós adultos.

Tenho agora uma nova etapa com o Theo, na qual sei que, quando estou com ele, preciso estar minimamente conectado com ele (dentro das minhas possibilidades). Isso não quer dizer fazer todas as suas vontades e caprichos, mas observar seus movimentos  para que ele se sinta seguro.

Nos momentos em que nego algo, por conta de alguma impossibilidade, ele compreende com mais facilidade, pois percebe minha presença, e pode confiar em mim. Ele também está mais disposto a me obedecer, porque percebe minha autoridade, meu olhar atento e sente minha conexão.

As crianças querem que sejamos seus guias e lhes mostremos o caminho. Mas elas desejam ser educadas por alguém que as ame e demonstre esse amor estando presente, sem um celular nas mãos, por exemplo.

Uma conversa com a vó Lurdes sobre 'Constelação Familiar' me proporcionou uma nova perspectiva, transformando minha relação com o Theo, e compreendendo que eu não sou o pai dele, logo a responsabilidade por sua educação não é minha. Entendendo dessa forma o meu comprometimento, me posicionei na condição de avô e, como tal, estou comprometido em ajudar a cuidar e zelar, mas desvinculei-me dessa obrigação que é de seus pais.

Em uma conversa com Oliver, ele me disse algo que me fez compreender por que eu estava assumindo o papel de pai, muito mais do que o de avô, nessa relação: Sendo eu pai de três filhos, desenvolvi um profundo senso de educador e provedor paternal durante longos anos. Como meus filhos agora são adultos e eu perdi completamente o controle sobre eles, eu acabei transferindo instintivamente esse sentimento para meu neto. 

Como o pai dele está distante, ele mesmo, de alguma forma, demonstrou essa necessidade e eu acabei de forma inconsciente assumindo um papel que não compete a mim.

Ao compreender isso, desvinculei-me dessa obrigação e me posicionei na condição adequada de avô, que ama e ajuda a educar, e não mais como pai substituto.

Em resumo, nessa nossa relação, eu tenho tanto para compreender sobre mim mesmo, e tanto

para aprender com o Theo, quanto ele tem para aprender comigo.

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Hoje à tarde, depois que escrevi este texto, nós fomos ao parque dar pipoca para os patos e andar de bicicleta. 

Durante as providências de saída ele demonstrou algumas teimosias que sempre me deixam irritado. Normalmente, eu não tolero seu comportamento agitado quando eu preciso me concentrar (e ainda ter de correr atrás do piá que teima em fugir e subir em qualquer lugar mais alto que ele). Mas, de novo, em vez de corrigir isso nele, tentei corrigir minha paciência e tolerância (sendo firme, mas no tempo dele).

De forma geral, ele se comportou muito bem no parque. Mas, na saída, ele se negava a sentar na cadeirinha para eu afivelar o cinto. Percebi, então, que se eu engrossar e impor minha autoridade de forma rude e contundente, ele não se intimida (TOD - Transtorno obsessivo desafiador), ao contrário, ele parece estar disposto a revidar e brigar, e isso é o que sempre nos leva ao descontrole, tanto dele quanto meu. E, de novo, tive de me corrigir para evitar perder a paciência e assumir uma atitude agressiva.

Respirei fundo e tentei achar um jeito de mudar a nossa frequência. Mas ele parecia já estar muito mais inquieto, irritado e irredutível do que o normal (talvez cansado, como eu).

Parei um pouco, deixei ele reclamar e fazer estrepolias no interior do carro enquanto pensava o que fazer.

Então, eu lhe disse: Hei... Calma... olhe para mim! Você quer que eu te ajude? Então me ajude que eu te ajudo também! Vamos conversar? O que você quer? E ele me disse que queria um bambolê que viu no parque (não sei de onde ele tirou aquela ideia, mas acho que foi só uma desculpa dele para justificar seu mau humor naquele momento).

Eu lhe disse: Ok, você quer um bambolê? Depois eu compro um bambolê para você, mas agora você precisa sentar aqui e pôr o cinto. Falei com a voz calma do Papai Pig e ele compreendeu e aceitou que precisava me obedecer.

A conclusão final é que ele não fica completamente tranquilo mesmo com minha atenção, mas tem alguns lapsos de mau humor e obstinação que precisam ser revertidos com inteligência emocional. O temperamento dele pode ser conduzido a bom termo dependendo do quanto eu esteja disposto a fazer concessões e correções, tanto nele quanto em mim.

Fomos embora com ele na cadeirinha com a promessa de que iríamos comprar o tal bambolê em outra ocasião, e que ele acabou esquecendo, é claro.

Nota final: para cumprir minha promessa, outro dia, acabei fazendo um bambolê de mangueira de jardim para ele, mas, para minha surpresa, ele não deu muita importância para aquilo, rsrs.

Autor" Flavio Goulart Rodrigues 

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Leia o livro "EU SOU VOCÊ"… (do mesmo autor)

https://a.co/d/dTDdeMM

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