Ensaio das paixões


Uma pessoa só passa a ser importante para nós a partir do momento em que a conhecemos e atribuímos um valor a ela. 

Existem mais de oito bilhões de pessoas vivendo no planeta. Nenhuma delas significa nada para nós até que a conheçamos. A partir de então, quanto mais admiração lhe conferimos, mais ela se torna especial, e mais nos tornamos apegados e dependentes da sua presença em nossa vida. Criamos então um elo de ligação, que nos torna carentes da presença dela.

Depois disso podemos ficar tão dependentes de amor, atenção e amizade dessa pessoa, que não conseguimos mais pensar em nossa vida sem ela.

É muito comum, nesses casos, se usar  a expressão :"estar cativado por alguém” como uma forma poética de se dizer que se está encantado ou enamorado de alguém. Essa palavra, todavia, deriva da palavra cativo, que significa estar preso em cativeiro.

Estar cativado, portanto, define muito bem a forma como nos comportamos e nos sentimos em nossos relacionamentos,  pois nos tornamos prisioneiros de um elo que nos une a outra pessoa, de tal forma que não conseguimos romper esses laços sem dor e sofrimento. Como se estivéssemos presos deste relacionamento. 

Se por algum motivo essa pessoa se afastar de nós, seja porque está longe por necessidade ou causalidade; ou ainda porque,  por algum conflito ou desentendimentos, nos negue seu amor e amizade, passamos a sofrer por sua ausência, ou por seu desprezo.

Só que essa carência está em nós; somos nós que atribuímos a essa pessoa o que ela significa para nós, e muito pouco ou quase nada têm a ver com ela. A imagem que ela representa para nós e os atributos e qualidades que atribuímos a ela são características construídas a partir de nossas próprias expectativas e pouco ou nada têm a ver com ela.

No final das contas tanto a imagem e o valor que damos a ela, bem como o sofrimento que sentimos por sua falta,  só existe dentro de nós e é fruto de nossa imaginação. 

Uma forma de se sair do torvelinho das paixões ocasionado por um rompimento amoroso seja lá quais forem suas causas, é racionalizar o que estamos sentindo. 

(A razão do intelecto ilumina as trevas das paixões).

Então, pense no seguinte:

Existem milhares de pessoas no mundo, mas só choramos pela falta ou desprezo dessa pessoa porque, por um lapso do acaso, a conhecemos em algum momento (e nada tem a ver com destino). Momento esse que teriam milhares de possibilidades de não ocorrer ou poderiam ter acontecido com outra pessoa em circunstâncias semelhantes; mas nossa mente cria a ilusão de que esse acontecimento, exclusivamente com essa pessoa, é um fato inevitável que não poderia ter sido diferente, e esconde de nossa consciência que foi apenas uma escolha aleatória dentre miríades de outras opções ocasionais, todas plausíveis de acontecer, mas apenas uma se tornou real para nós. 

Vejamos um exemplo:

Se jogássemos 20 dados sobre uma mesa teríamos aproximadamente 3,6 quatrihões de números possíveis para cada vez que jogássemos esses dados.

Agora imagine se jogássemos oito bilhões de dados que representassem cada habitante da terra, onde  os números de um a seis, sejam todas as variáveis de histórico e localização dessa pessoa; teríamos infinitas possibilidades de dois eventos acontecerem outra vez (... e que seria impossível de ser expressado com números) 

Por isso nossa mente cria a ilusão de que essa pessoa é especial, e sofremos por ela. Porque a partir do momento que a conhecemos ela passa a fazer parte da nossa história e que passamos a considerar como antes e depois de a conhecermos. 

Em nossa bolha de realidade,  esse novo personagem passa a existir agora, e nossa mente cria um novo cenário  com um novo drama e uma nova realidade… e não conseguimos mais dissociar esse personagem das coisas que dão valor e significado a nossa existência.

Ok, mas o que fazer agora se estou sofrendo pelo amor ou amizade de uma pessoa que não está mais comigo e que sua ausência me causa esse sentimento de tristeza e solidão?

Ajuda muito se nos tornarmos conscientes de todo esse processo. Veremos então que essa pessoa só é especial por puro acaso e que nosso sofrimento é uma ilusão, pois qualquer outra pessoa poderia tê-la substituído quando os dados tivessem sido lançados e mostrado outros valores (e os dados estão sendo lançados a todo momento, só não o percebemos).

Mas isso ainda não elimina a dor imediatamente, pois continuamos com a imagem dessa pessoas viva em nossa mente como uma marca impressa a fogo; mas ajuda no processo de cura e nos fortalece no momento em que nos tira do torvelinho de emoções que nos arrastam para as torrentes  das paixões.

Com o tempo essa marca se cura e cicatriza e uma pessoa que tinha um grande significado se torna uma indelével lembrança em nossa nova realidade.

:Nesse mundo tudo é impermanente e está em constante mudanca"

Autor:Flavio Goulart Rodrigues 

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