A Arquitetura do Autoengano
Nosso cérebro é um servo obediente que nos diz tudo o que queremos ouvir. E, para atender às nossas expectativas, ele organiza informações e constrói narrativas que nos ajudam a interpretar o mundo do jeito que nos interessa. Mas, nessa tentativa de encontrar coerência que nos satisfaça, ele também pode nos enganar.
Quatro conceitos psicológicos nos ajudam a entender como isso acontece. São eles: dissonância cognitiva, viés de confirmação, encaixe retroativo e apofenia.
Vamos entender o que são, como se relacionam e como influenciam nossa compreensão e decisões.
Dissonância Cognitiva
A dissonância cognitiva é um desconforto psicológico que sentimos quando nossas ações entram em conflito com nossas crenças ou valores. Esse conflito gera uma tensão interna que tentamos aliviar de duas formas: ou mudamos nossa determinação em realizar aquilo que nos propusemos, ou subvertemos e adaptamos nossas crenças para se ajustar e dar continuidade ao nosso propósito.
Exemplo: Uma pessoa com educação moral ou religiosa poderá aceitar ou oferecer suborno, ou participar de alguns tipos de corrupção ou ilícito, por conta de uma necessidade financeira premente ou por uma irresistível ganância. Ao se envolver e ceder aos seus impulsos, ela cria um conflito interior (inconsciente, na maioria das vezes). Esse conflito interno é o que é definido como "dissonância cognitiva". Aquele meme onde um anjinho e um diabinho brigam e tentam nos convencer a fazer uma escolha conflituosa é, na verdade, uma metáfora da dissonância cognitiva.
Viés de Confirmação
O viés de confirmação ocorre quando ela busca um argumento para justificar por que cometeu o delito e ficar em paz com sua consciência. O viés de confirmação é também a tendência de se buscarem argumentos que reforçam o que acreditamos e ignorar informações que possam nos mostrar evidências contrárias.
Exemplo: Alguém que acredita em astrologia tende a lembrar apenas das previsões que deram certo, esquecendo as que falharam, reforçando assim sua crença. Pessoas que acreditam na providência divina e que saem ilesas de um acidente costumam classificar esses acontecimentos como livramento ou benevolência divina, mas ignoram qualquer acontecimento ruim que lhes aconteça como tendo alguma relação com o criador. Ou seja, ela escolhe o que lhe é mais vantajoso acreditar.
Encaixe Retroativo
O encaixe retroativo é uma sensação que temos, depois de um acontecimento, de que aquele resultado já era previsível. No encaixe retroativo, nós interpretamos o passado como se o desfecho já estivesse “anunciado”.
Exemplo: Após uma eleição, muitas pessoas dizem: “Eu já sabia que esse candidato ia ganhar”, mesmo que antes tivessem dúvidas ou acreditassem no outro candidato. É o cérebro reconstruindo a narrativa para parecer que o desfecho era óbvio.
Apofenia
A apofenia é a tendência de perceber padrões ou conexões significativas em dados aleatórios ou sem relação.
Exemplo: Alguém perde um ônibus e, em seguida, encontra uma pessoa querida. Então conclui que "tinha que ser assim", vendo no acaso um padrão oculto.
Como Esses Conceitos se Relacionam
Esses quatro mecanismos se entrelaçam e se reforçam mutuamente: A dissonância cognitiva pode levar a pessoa a buscar explicações que aliviem o desconforto interno. Nesse processo, é comum que ela enxergue padrões ilusórios (apofenia) que justifiquem suas ações. Para manter sua narrativa intacta, ela busca informações que reforcem essa visão e ignora o que contradiz (viés de confirmação). Com o tempo, ela pode reinterpretar os fatos anteriores de forma seletiva, acreditando que "já sabia de tudo" (encaixe retroativo).
Exemplo Integrado Imagine alguém que investe em criptomoedas e perde dinheiro. Para lidar com a frustração (dissonância cognitiva), diz a si mesmo que "era um risco calculado" (encaixe retroativo). Depois, começa a procurar notícias que confirmem que o mercado ainda é promissor (viés de confirmação). Por fim, lembra apenas das análises otimistas que viu antes do investimento, como se tudo já apontasse para esse caminho (encaixe retroativo). E talvez até veja na sequência de eventos um “sinal” que justifique tudo (apofenia).
Existe um trabalho de psicologia social descrito no livro When Prophecy Fails (Quando a Profecia Falha), baseado em um estudo realizado pelos cientistas Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter, a partir de um acontecimento ocorrido em Chicago no ano de 1954, onde Dorothy Martin, uma dona de casa, alegava ter se comunicado, através de cartas psicografadas, com seres superiores de um planeta distante chamado Clarion. Esses seres previam um dilúvio de proporções apocalípticas que aconteceria na madrugada do dia 21 de dezembro daquele ano e que, em tal dia, uma nave espacial alienígena viria resgatar as pessoas eleitas. Criou-se, a partir daí, uma comunidade de pessoas crentes de que tal profecia iria de fato acontecer. Muitas dessas pessoas, envolvendo-se de forma “intempestuosa” no grupo, largaram o emprego, abandonaram suas famílias, romperam relacionamentos e se desfizeram de bens materiais.
Mas o dia 21, todavia, transcorreu normalmente, sem chuvas e sem naves espaciais.
O que houve com a crença dos devotos diante do fato de que nada aconteceu é um capítulo à parte dos estudos denominados “dissonância cognitiva” e “viés de confirmação”, que mostram que, quando as pessoas depositam suas vidas na crença de algo, mas a realidade, confrontada com suas crenças, lhes mostra outra coisa bem diferente (dissonância cognitiva), a frustração inicial pode converter-se logo em seguida em uma nova interpretação dos fatos (viés de confirmação). No caso em questão, uma outra mensagem psicografada deu-se por conta de que as orações do grupo, durante aquela noite de vigília, criaram tanta luz que a população da Terra teria sido poupada da catástrofe. E o que era para ser uma grande desilusão e dissolução do grupo tornou-se uma prova de que suas crenças eram verossímeis, criando-se uma nova abordagem e fortalecendo a fé e o engajamento dos devotos.
Estes e outros fenômenos de comportamento similares, que ocorrem na forma como os seres humanos interpretam subjetivamente a realidade — e que são estudados pela psicologia e pela neurociência —, podem ser notados tanto nas crenças religiosas quanto em ideologias políticas, tendo sido inúmeras vezes usados com o objetivo de conduzir as massas através da manipulação da opinião pública.
Conclusão
Nosso cérebro busca sentido, mesmo quando ele não existe. Essa necessidade de coerência e previsibilidade nos leva a criar padrões ilusórios, justificar decisões passadas e rejeitar informações conflitantes. Entender esses mecanismos é um passo essencial para desenvolver pensamento crítico e tomar decisões mais conscientes e racionais. Mas pode também ser um ótimo recurso para percebermos quando as pessoas estão sendo influenciadas por isso, nos ajudando a escapar dessas armadilhas em um debate.
Autor: Flavio Goulart Rodrigues
Links do autor:
https://www.facebook.com/flaviorodriguescronicasereflexoes/
https://www.blogger.com/blog/posts/6237964631233537596?pli=1