Efeito Borboleta
Efeito Borboleta
uma reflexão sobre decisões e destinos
O encontro
Quando chegou em frente ao clube, já passando das 22h, e seus amigos não estavam lhe esperando conforme o combinado, resmungou:
— Mais essa agora… cadê esses caras?
Ele não estava muito animado, mas a agitação na portaria com lindas garotas fantasiadas entrando, e o som da banda tocando as marchinhas de carnaval lá dentro, tudo isso gritava aos hormônios dos seus vinte anos que entrar era sua única opção de escolha.
— Talvez já tenham entrado — pensou!
Na dúvida, pagou o ingresso e entrou. Os três amigos o viram primeiro, perdido no meio dos foliões, e foram até ele, bebendo suas cervejas. Estavam todos muito animados e eufóricos para se divertirem. Ele não estava com a mesma empolgação, mas pegou uma cerveja e se juntou ao grupo.
Mais algumas cervejas depois, já havia esquecido que não gostava de carnaval e entrou no ritmo com os amigos, que se juntaram a uma mesa com algumas garotas.
A entrada do Rei Momo no clube causou grande alvoroço na multidão, que se espremia para ver o show de um grupo de belíssimas passistas sambando. Como não conseguia enxergar direito, subiu em uma cadeira para ter uma visão melhor do espetáculo. Estava totalmente concentrado no show quando sentiu alguém se segurando nele e subindo na cadeira onde estava. Era a garota mais linda que já tinha visto. Ele ficou confuso, sem entender o que estava acontecendo. Ela o olhou, sorriu e lhe perguntou se podia dividir a cadeira com ele. E, antes que ele pudesse sair daquele transe hipnótico e dizer alguma coisa, ela virou-se para assistir ao show.
A partir dali, ele não enxergava mais nada além da garota que dançava à sua frente, quase colada ao seu corpo.
Mas o que, para ele, poderia durar uma eternidade, acabou tão inesperadamente quanto começou, com ela virando-se para trás, olhando-o e dizendo algo que pareceu ser:
— Obrigada... tchau.
E então desceu rapidamente da cadeira.
Pensou em lhe dizer alguma coisa, mas não lhe ocorreu nada. Ficou estático, e tudo o que via era a garota mais linda do mundo indo embora em uma fração de segundos, como um anjo desvanecendo-se em brumas.
Ele titubeou… o tempo corria rápido demais, e não conseguia raciocinar direito! Sabia que deveria fazer algo, mas havia um rapaz a esperando, que a pegou pela mão e a levou, desaparecendo na multidão.
Final 1
Numa fração de segundos, vieram-lhe as palavras de seu pai, que lhe dissera alguns dias atrás:
“Há coisas em nossas vidas que pensar demais só atrapalha.”
Ele pulou da cadeira, pegou a mão da garota e a puxou para si. Ela rodopiou e ficou diante dele com aquele mesmo sorriso de antes. Ele ficou paralisado. Não sabia bem o que dizer. Levou seu rosto próximo ao dela e falou:
— Espere... onde você vai?
Ela disse qualquer coisa que o barulho da banda o impediu de entender, mas, de qualquer forma, ele não estava interessado em saber para onde ela pretendia ir.
— Quero falar com você. Fique mais um pouco.
Ela sorriu, virou-se para o rapaz que a aguardava e sinalizou com um dedo que precisava de um minutinho. O rapaz concordou e se afastou. Ela levou o rosto próximo ao dele e disse:
— Fale!
— Bem… foi a primeira vez que dividi uma cadeira com alguém... gostaria de conhecer essa pessoa… quem era o rapaz que te acompanhava?
— Não é meu namorado, se é o que você quer saber… na verdade, ele está esperando o namorado dele, que está demorando pra chegar.
Ficou feliz e aliviado por saber que ela não tinha namorado.
— Como é seu nome?
— Amanda — disse ela — e o seu?
O resto da noite, eles se conheceram, beberam, conversaram, se beijaram e se divertiram.
Acordou por volta do meio-dia e, durante o resto do dia, contou os minutos para vê-la de novo.
Apaixonaram-se e casaram em menos de um ano. Tiveram dois filhos, depois os netos... e uma vida repleta de viagens e encontros com amigos e familiares.
Vez por outra, alguém pedia para que contassem a história de como dividiram uma cadeira e se conheceram.
Final 2
...mas o que, para ele, poderia durar uma eternidade, acabou tão inesperadamente quanto começou, com ela virando-se para trás, olhando-o e dizendo algo que pareceu ser:
— Obrigada... tchau.
Desceu rapidamente da cadeira, onde um rapaz a pegou pela mão e desapareceram na multidão…
Desceu da cadeira ainda meio inebriado pela garota. A festa parecia ter perdido todo o brilho. Bebeu mais algumas cervejas tentando se animar, mas acabou voltando cedo para casa.
Acordou no outro dia quando sua mãe o chamou para o café. Levantou-se e, à mesa com seus pais, pensou na garota, mas não deu muita importância ao caso. Afinal, o que poderia ter feito naquela situação? A garota estava acompanhada, e ele não teve a chance de lhe dizer algo mais... Certamente nunca mais a veria… e, de fato, nunca mais a viu.
Oito anos depois, casou-se com uma colega de trabalho. Construíram uma casa e tiveram dois filhos. Mas a relação dos dois foi sempre conflituosa, e acabaram se separando quando os filhos foram para a faculdade.
Efeito Borboleta
Certo dia encontrou um dos amigos em um bar. Pediram cervejas e conversaram:
— Como você está? O que tem feito da vida? — perguntou ao amigo.
— Eu estou divorciado. Fui professor de filosofia na universidade, mas agora estou aposentado e moro sozinho com meu cachorro.
— Filosofia? Nunca soube que você gostava disso.
— Sempre gostei do estudo das ideias e reflexões sobre o pensamento humano e a vida. Num dado momento, as oportunidades apareceram e acabei entrando para a universidade. Mas, e você? O que faz da vida?
— Trabalhei em uma montadora de veículos por muitos anos, mas agora estou aposentado também. Comprei um sítio recentemente e estou construindo uma casa lá. Também me divorciei, mas tenho uma namorada que mora comigo.
— Você por acaso casou com a moça da cadeira?
E os dois se puseram a rir.
— Claro que não! Mas você lembra ainda dessa história?
— Claro! Foi uma situação inusitada. A gente pegou no seu pé por causa da sua cara de desapontamento quando ela foi embora. O que aconteceu com você naquela noite, afinal? Quando te procuramos, você tinha sumido.
— Comigo nada! A garota subiu na cadeira, a gente ficou ali alguns momentos juntos, depois ela foi embora. Ela tinha um namorado, lembra?
— Lembro que tinha um rapaz com ela; se era namorado ou irmão, não sei.
Depois, o amigo bebeu um gole de cerveja e completou:
— Você já pensou que nossa vida inteira, do jeito que é no presente, é só um amontoado de milhares de pequenos acontecimentos que geram decisões aleatórias o tempo todo? Que, a cada escolha, a vida dá uma guinada e muda tudo o que vem depois?
E prosseguiu:
— Tenho um amigo que ia fazer uma pescaria com mais três. Mas, no dia da viagem, o filho dele caiu de uma árvore e quebrou o braço. Ele não pôde ir. Mais tarde soube que o carro, em que viajavam os amigos, sofreu um acidente grave e todos morreram.
Todo mundo diz que, se ele tivesse ido, também teria morrido. Mas não é bem assim! O simples fato de ele não ter embarcado mudou o destino de todos. Cada segundo altera o ponto em que um carro se encontra, muda o trânsito, os sinais, os encontros... Talvez, se ele estivesse no carro, o acidente sequer teria acontecido.
Isso é o que a Teoria do Caos chama de “efeito borboleta”: que diz, de forma ilustrativa, que o bater de asas de uma borboleta pode desencadear uma cadeia de eventos que culmina em algo de grandes proporções.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, bebendo cervejas e degustando os aperitivos.
— Estou tentando entender como a garota da cadeira entra nessa equação — disse, sorrindo.
— É só uma reflexão! Gosto de pensar nessas coisas. O que teria sido da sua vida se você tivesse ficado com ela?
— Talvez tivesse criado um problema com o namorado dela...
— Talvez não fosse o namorado... questiona o amigo.
— Mas, e se esse efeito borboleta não existir? E se tudo em nossa vida nos empurrasse sempre para um final previsto?
— Isso é acreditar em destino. Você crê nisso?
— Acredito! Talvez, não importa o que eu decidisse, de algum jeito eu acabaria aqui, com a vida que tenho. Talvez a vida se encarregasse de me trazer até este ponto, mesmo por outros caminhos.
— São visões opostas. Acho que o efeito borboleta faz mais sentido pra mim.
— Pode ser... mas continuo acreditando no destino.
Trocaram de assunto, pediram mais uma rodada e prometeram manter contato.
Epílogo
À noite, deitado na cama, aquela conversa não lhe saía da cabeça. Pensou na garota — Onde estará ela? Como será sua aparência hoje? O que teria sido de nossas vidas se o destino realmente estivesse traçado entre nós?
Neste momento foi interrompido por sua namorada, que lhe trouxe uma xícara de chá. Ela sentou-se na borda da cama.
Ele olhou para ela enquanto bebericava sei chá e lhe perguntou inesperadamente:
— Você gosta de carnaval, meu amor?
— Hoje não ligo muito, mas quando jovem eu adorava os bailes da cidade… por quê?
— Já, sim.
— Por acaso, lembra de ter subido numa cadeira com um estranho, num baile de carnaval?
Ela gargalhou:
— Como vou lembrar disso? Que história louca é essa, meu amor? De onde você tirou isso?
— Nada não, querida. Foi só uma bobagem que me passou pela cabeça…
Autor: Flávio Goulart Rodrigues
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