Uma pequena (e perigosa) sociedade de consumo
Em uma pequena aldeia em um lugar muito distante, os homens viviam com suas famílias em casas fabricadas por eles mesmos, com troncos e folhas, em uma comunidade cooperativa e autossuficiente.
Cultivavam pequenas roças, pescavam, caçavam e faziam suas próprias vestimentas e utensílios domésticos.
Para fazer fogo, esfregavam um graveto em uma lasca de madeira até criar pequenas brasas, que assopravam até brotarem as chamas. Com elas, se aqueciam no inverno e cozinhavam seus alimentos. Embora o processo fosse demorado, conseguiam atear fogo em qualquer lugar que estivessem.
Um dia, um viajante apareceu inesperadamente em uma nave, e se estabeleceu nas montanhas próximas da aldeia.
Ao se aproximarem para fazer contato foram presenteados com um isqueiro. A princípio, todos ficaram maravilhados com a facilidade daquela inovação tecnológica, pois, doravante, poderiam fazer fogo instantaneamente, eliminando o processo cansativo de esfregar dois gravetos.
Mas, com o tempo, o isqueiro se esgotou.
Sem saber exatamente o que fazer, subiram as montanhas e pediram orientação ao estrangeiro que, para surpresa de todos, pegou o isqueiro e o jogou fora numa cesta de lixo, como se aquilo não tivesse para ele importância nenhuma. Depois, entrou em sua nave e retornou, para alegria de todos, com outro isqueiro novinho.
Só havia uma condição: eles agora teriam que trabalhar em uma fábrica anexo à nave para pagar o que o viajante chamava de “bens de consumo”.
Estava condicionado a relação trabalho/consumo para aquelas pessoas.
Aproveitando a visita, o viajante os presenteou com um frango limpo e embalado em plástico, e disse que, doravante, não precisariam mais caçar (desde que pagassem com trabalho, é claro).
Ao retornarem no outro dia para pegar mais frango, havia uma placa no alto da porta da nave com os dizeres: “Supermercado”. Desta vez, puderam entrar e se maravilhar com centenas de itens devidamente embalados, que facilitariam suas vidas para sempre.
Daí em diante, tinham que trabalhar cada vez mais, na fábrica do viajante, para comprar coisas com as quais ficavam cada vez mais acostumados e dependentes, sem as quais não podiam mais viver.
Centenas de gerações se passaram. A comunidade cresceu em torno da fábrica sob a supervisão do estrangeiro. As pessoas, então, não tinham mais a menor ideia de como fazer fogo com fricção, caçar, pescar, plantar, confeccionar roupas ou, que dirá, construir uma casa com as próprias mãos e as coisas da natureza. Tudo o que precisavam fazer era trabalhar de oito a dez horas por dia e comprar suas necessidades no supermercado.
Um dia, ninguém sabe por quê, a nave, a fábrica e o viajante desapareceram.
Como não sabiam mais fazer nada do que consumiam, o caos social se instaurou. Houve muitas discussões e lutas durante muito tempo.
Alguns meses depois, não havia mais alimento. Quando os isqueiros pararam de funcionar, ninguém sabia como fazer fogo como seus antepassados faziam. Algo tão necessário naquele inverno tão rigoroso.
Muitos morreram: alguns de frio, outros de fome, ou mortos nas lutas por poder. Os poucos que sobreviveram desceram das montanhas e se dispersaram nas planícies…e nunca mais se teve notícias daquele povo.
Autor: Flavio Goulart Rodrigues
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Análise literária
A parábola da aldeia e do viajante nos fala, em última instância, sobre o fascínio que o consumo exerce nas pessoas e o preço da dependência que ele cria. A chegada do viajante, oferecendo um simples isqueiro, representa a introdução de uma tecnologia externa que promete facilidades. O objeto, aparentemente inofensivo, substitui o labor tradicional. O que antes era um processo trabalhoso, mas comunitário e sustentável, torna-se descartável e passa a obedecer a uma nova lógica: trabalhar em troca de bens industrializados e embalados.
Do ponto de vista da psicologia social, é o início de um processo de dependência aprendida. O prazer imediato do consumo gera um hábito que, aos poucos, elimina a memória cultural e os vínculos com a autossuficiência. Quando o viajante provedor desaparece, a comunidade percebe que não sabe mais fazer nada. A vida, outrora organizada em torno da cooperação, colapsa sob o peso da ignorância aprendida.
Esse dilema não é apenas ficção. A história mostra como esse padrão se repete em diferentes épocas.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, ofereceram espelhinhos e outras quinquilharias em troca de bens de valor incomparavelmente maiores. Mas não era apenas uma troca de objetos: era o início de uma relação de subordinação simbólica e cultural, em que aquilo que brilhava e fascinava passou a valer mais do que o conhecimento, os valores culturais, a terra e a autonomia.
Outrossim, na década de 1970, a China, ao abrir suas portas às empresas estrangeiras, não se contentou em ser apenas consumidora e fornecedora de mão de obra. Ao contrário, exigiu transferência de tecnologia que garantiria autonomia produtiva e soberania futura. Graças a essa estratégia, deixou de ser apenas um polo de mão de obra barata e se tornou uma potência tecnológica.
Já no Brasil, houve um período de grande crescimento econômico na década de 2000/2010, que permitiu a ascensão da classe social de milhões de pessoas. Mas esse avanço não foi acompanhado de um projeto igualmente robusto de educação e formação política. Criou-se ao invés disso uma sociedade de consumidores, mas não de cidadãos esclarecidos. O resultado foi satisfação imediata, porém pouca resiliência quando a economia se desestabilizou e a política foi contestada.
Do ponto de vista antropológico, cada tecnologia carrega consigo uma visão de mundo. O isqueiro, na parábola, não é apenas uma ferramenta: ele redefine o que a comunidade entende como necessário e valioso. O risco é que, ao adotar os bens de consumo que a indústria oferece as pessoas esqueçam seus valores e sua autonomia.
Na era digital, o viajante não traz mais isqueiros nem espelhinhos, mas aplicativos, redes sociais e algoritmos que simplificam a vida ao mesmo tempo em que substituem habilidades e criam novas formas de dependência. O fascínio é imediato, mas, como na aldeia, a perda de autonomia pode ser profunda e irreversível, se não for acompanhada de educação. E a exemplo do que aconteceu com os aldeões, quando se viram sem suas fontes de provisões, as pessoas também ficam confusas e sem noção do que fazer quando perdem o contato com o celular. Como se não pudessem mais olhar o seu entorno e respirar pura e simplesmente como sempre o fizemos.
Moral da história: consumo sem conhecimento e autonomia transforma-se em dependência e escravidão disfarçada.
Nota – esta análise nada tem a ver com programas sociais emergenciais criados para tirar pessoas da miséria e outros programas semelhantes.