Ensaio sobre a vida e a morte


🕊️ Beleza Oculta — Um ensaio sobre a vida e a morte

Quando éramos pequenos, as pessoas que morriam eram sempre de uma geração distante à nossa frente.
Primeiro morreram nossos avós, ou os avós de algum conhecido; depois, nossos pais e os pais de nossos amigos.
Agora, essa geração toda já se foi, e começam a sair de cena a nossa própria geração: nossos colegas de escola, nossos amigos, nossos primos e nossos irmãos.
É como se estivéssemos em uma longa fila e, aos poucos, as primeiras pessoas lá na frente fossem saindo, enquanto outras entram no final. Até que chegamos a um momento em que a fila à nossa frente está muito curta e próxima de nós, e atrás ficou enorme.
Essa fila está sempre do mesmo tamanho; o que muda é a posição em que estamos nela — e, no meu caso, já está bem curta à minha frente. E ela não para... a fila anda. Em breve seremos nós o primeiro da fila — o próximo a sair.

Os principais acontecimentos na vida de uma pessoa são, indubitavelmente, o nascimento e a morte.
E, entre esses dois extremos — que chamamos de “nossa vida” —, temos a chance de perceber que existe bondade em tudo (até mesmo na morte) e de refletir e procurar um propósito para essa existência, que também inclui o nosso momento final.

Em 1960, meu pai morreu vítima de um câncer que o levou em pouco mais de um ano.
Seus últimos dias foram de muita luta, dor e sofrimento.
Em seu funeral, eu tinha seis anos, mas aquele momento me incutiu uma estranha sensação que sempre guardei na memória como uma lembrança indelével — algo que nunca consegui esquecer nem compreender adequadamente.
Como minha inocência de menino não me deixava perceber a gravidade da situação, nem as implicações e consequências que sua morte traria às nossas vidas, o que eu sentia era uma estranha paz ao observar o silêncio impregnado em tudo e em todos naquele momento.
Os adultos conversavam baixinho, quase em sussurros; o choro contido de minha mãe e de alguns parentes, o cheiro das velas e o perfume das flores que exalava do ataúde onde meu pai repousava — estranhamente tranquilo, depois de tanta luta e sofrimento.
Mas o que eu via não me parecia trágico; ao contrário, me parecia estranhamente harmônico e incompreensível ao meu entendimento naquele momento.
Sessenta anos depois, assisti ao filme Beleza Oculta (com Will Smith), em que uma mulher aguarda, na sala de espera de um hospital, notícias de sua filhinha de seis anos que agonizava em coma, vítima de um câncer terminal.
Uma outra mulher (supostamente o próprio anjo da morte) se aproxima e lhe diz:
— Não deixe de perceber a beleza oculta.
Por mais polêmico que esse filme possa ser em relação à morte, o fato é que aquela cena me fez compreender o que eu sentira no funeral de meu pai: eu percebera a beleza oculta por trás daquele acontecimento, supostamente fatídico.
Não foi algo que desejei sentir, mas o resultado da percepção de um menino inocente, olhando o que acontecia diante de seus olhos, sem julgamento nem expectativas.

Há alguns anos, perdi um amigo. Durante seu funeral, percebi que sua esposa, afastando-se momentaneamente da capela funerária, contemplava em silêncio algumas sepulturas, em um recanto sossegado à sombra de ciprestes.
Ao me aproximar, ela me disse:
— Tem uma coisa aqui que nos deixa tão tranquilos... Por que a gente sente tanta paz olhando essas sepulturas?
Quando percebi o que ela estava sentindo, respondi:
— Acho que o que a gente sente é a percepção de que se acabaram todas as expectativas, todas as lutas, todas as crenças e todo o sofrimento. Nada mais há pelo que lutar. O que sobra é esse silêncio — e essa paz.
E nós ficamos algum tempo ali, apenas contemplando.

O livro O "Irmão de Assis" (de Inácio Lañarraga) relata que, em seu leito de morte, São Francisco tranquilizou os que por ele choravam, dizendo:
“Bem-vinda sejas, minha irmã Morte... feliz o homem que te recebe em paz.”

Recentemente, assisti a um documentário em que uma mulher falava sobre um furacão nos EUA e sobre como quase morreu afogada quando o mar invadiu e arrastou sua casa.
Ela disse que, no momento em que se debatia submersa nas águas revoltas, lutando por sua vida, teve a certeza de que estava morrendo — e não sentiu medo algum.
Parecia-lhe que aquele momento de sua morte era uma coisa natural. Ela contou ainda que, naquelas circunstâncias, teve tempo de ficar calma e pensar:
— As pessoas sempre me disseram que morrer afogada era muito ruim... mas não estou achando tão ruim assim.

Quando meu padrasto foi internado, em uma de suas graves crises respiratórias, eu o visitei. Ele estava na UTI, dormindo, mas acordou quando cheguei ao seu lado.
Conversei algumas palavras, mas ele parecia muito debilitado. Então peguei sua mão e disse:
— Fique tranquilo, Seu Santos, o senhor vai melhorar e logo, logo estará em casa.
Ele não podia falar, mas me olhou nos olhos e balançou a cabeça negativamente, como quem me avisava que sabia que era sua última estada ali.
Havia tranquilidade em seu olhar, como se dissesse que sabia estar em seu leito de morte — e que aceitava o fim.
Fiquei em silêncio, porque percebi que ele estava preparado, aguardando seus últimos momentos.
Não me senti no direito de lhe tirar essa certeza, pois desde menino sempre tive curiosidade sobre o momento da morte — e sempre nutri o desejo de ter consciência e paz quando esse instante chegar para mim também.
Em seguida, ele voltou a dormir, e faleceu naquela mesma noite.

A última vez que vi minha mãe viva foi em Curitiba, dois meses antes de ela falecer. Eu a trouxera comigo, quando estive em Porto Alegre  para que passasse um tempo conosco para ver se melhorava sua saúde, já bastante debilitada.
Mas seu quadro clinico se agravou, tendo que ser levada a um hospital.
Certo dia, depois de uma dessas crises, estávamos conversando na mesa da cozinha sobre seu estado de saúde, e ela me disse:
— É, meu filho... acho que não tenho muito mais tempo de vida, não!
Perguntei por que ela dizia aquilo, e ela respondeu que estava “toda estoporada”. Nós nos pusemos a rir do linguajar dela.
Não lembro o que falamos depois disso, mas mais tarde reuni minhas filhas no quintal, onde ela não pudesse nos ouvir, e lhes falei sobre a saúde debilitada da avó. No final, acrescentei:
— Fiquem com ela o máximo de tempo que puderem, conversem e aproveitem bem esses momentos, pois talvez sejam os últimos que vocês terão com ela.
Aline, surpresa, me olhou muito séria, e Vivian pôs-se a chorar.
Algumas semanas depois, ela retornou para sua cas, e pouco tempo depois faleceu.
A morte aparentemente não tem sentido e nos parece distante e incompreensível.
Por isso, só posso crer que Algo ou Alguém, que não temos como definir, e muito menos nomear, criou este universo, no qual estamos inseridos, com algum propósito que desconhecemos.
Não temos ainda como compreender a razão de as coisas serem como são, mas podemos confiar que estão de acordo com as leis que criaram e governam tudo.
Inclusive a morte,  que faz parte da vida.
O que nos resta é confiar que tudo está certo, e que “nada há o que temer.”

“Todos nós somos passageiros no mundo,
Da cama macia para o caixão,
Do nascimento até a morte,
Nós viajamos entre as eternidades.”
(Do filme Broken Trail – Rastro Perdido)

Autor: Flavio Goulart Rodrigues 

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